Foi durante a faculdade, mais especificamente em uma cadeira de Cibercultura, e mais especificamente ainda em uma lan house, que tive o primeiro contato com a espécie homo gamer intensus. Sempre fui do time do videogame – tive Atari, Master System, Mega Drive, Nintendo 64, PS2, X360 e agora um PS4 -, mas esse contato com a juventude encarnada em Call of Duty¹ ilustrou, através de sucessivas mortes nas disputas, o quanto a minha casualidade videogamística estava defasada diante da blietzkrieg juvenil.

E havia um elemento que deixava tudo ainda mais desparelho: o mouse.

Vindo da escola filosófica dos consoles, a minha vida sempre foi simples: a mão esquerda controla o boneco, a mão direita aperta os botões. Isso acabou decidindo que um lado do corpo iria interagir com as nuances da movimentação e o outro iria marretar coisas. Assim, quando fui jogar na lan house, o advento do mouse na configuração dos jogos representou um obstáculo muito maior do que qualquer Monkey Island pensou em atirar no caminho. Parecia existir um rodovia com anos-luz de distância entre objeto e coordenação motora. Mas ei, eu sou da gangue dos consoles. O mouse não representa uma ameaça para mim.

Só que o destino, esse rapaz que fica bêbado e sai pela rua roubando cones, decidiu puxar o meu tapete. E lá vieram os controles com dois direcionais desfazer qualquer confiança que eu tinha diante de um jogo virtual, pois essa disposição amaldiçoada exige que o polegar direito seja usado para movimentar coisas, e adivinha, o meu polegar direito movimenta coisas sem ter a mínima noção de direção. No FIFA, por exemplo, o direcional direito abriga os comandos responsáveis por dribles – mas eu nunca consigo dar o mesmo drible duas vezes, ainda que tentando fazer o mesmo movimento. Em jogos de tiro, ele controla a câmera ou a mira, e daí a sensação que eu tenho é a de tentar achar uma agulha em um palheiro só que esse palheiro não é só um palheiro é o oceano Atlântico que se transformou todo em um enorme palheiro.

É uma questão que vai além da ruindade em mexer no direcional direito, entrando no terreno da incompatibilidade intrínseca, no sentido de que são dois elementos de mundos diferentes que não fazem sentido juntos, no sentido de que usar o polegar direito pra movimentar o direcional direito é como tentar ligar o carro colocando uma banana na ignição. E só o que resta fazer é lamentar por mais um momento na história onde os polegares opositores solidificaram a evolução da espécie.

¹Ao menos acho que era Call of Duty. Sei que era um jogo de guerra, então leve em consideração que podia ser um Medal of Honor da vida ou qualquer outra coisa onde a última tendência são calças camufladas.