Parece mister subjugar todas essas décadas de filmes natalinos e especiais do Roberto Carlos, de discursos edificantes e imagens com erros gramaticais no WhatsApp, e reconhecer que, no fim das contas, o Natal é mesmo sobre os presentes. A ceia chega perto, mas ainda há um quê autoral nos pratos que polvilham a mesa durante o feriado mais espiritual e comercial do ano. Os presentes não.

Cada empreitada natalina exige sangue, suor, lágrimas e reais de seus praticantes. Na melhor das hipóteses, é um processo repleto de gatilhos de angústia: será que a camiseta é M ou G? Esse livro parece o tipo que fulano ou fulana gostaria? Qual dessas cervejas é realmente boa e qual as pessoas só dizem que é boa por ser diferente? Minha nossa, será que eu comprei o tamanho certo de sabre de luz?

Na pior, é uma jornada colérica por exércitos demoníacos se arrastando em círculos do inferno em uma corrida contra o tempo ao redor de praças de alimentação. Não há ato maior de amor incondicional do que comprar um presente em cima da hora: é o abandono total das faculdades de autopreservação e um mergulho seminal em direção ao perigo. O pináculo de colocar os outros à frente de si mesmo.

Se você realmente quer saber o significado do Natal, saia imediatamente de casa e vá em direção ao shopping armado apenas com uma vaga ideia do que seria um bom presente pra uma pessoa que você gosta. O resto é um aprendizado que nenhum especial natalino consegue superar.