Não sei se vocês já perceberam, mas os esportes das Olimpíadas de Inverno são menos um lance de competição e mais um lance de escapar: a grande maioria das atividades envolve descer por alguma formação geológica/humana cheia de neve o mais rápido possível, como se fosse o 007 fugindo de algum esconderijo nos alpes (Roger Moore se a fuga for de esqui; Pierce Brosnan se for de patinação artística com paraquedas).

Aliás, com a chegada das Olimpíadas de Inverno de 2018 em PyeongChang¹ é impossível não se atentar a algumas características interessantes desses esportes tão distantes da nossa realidade (geograficamente e climaticamente).

Curling

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Um amigo meu chamou o curling de frozen bocha, o que talvez seja a definição definitiva. Mas, parando pra observar, percebe-se que o esporte consiste basicamente em rearranjar objetos dentro de um determinado espaço e varrer o chão, ou seja, é tanto esporte quanto arrumação da casa.

Esqui

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Eu olho para os esquiadores, para todo esse equipamento que engole cada um deles, roupas apertadas, casacos que pesam toneladas, óculos desesperadamente grandes, capacetes, touca, varetas vitaminadas nas mãos e um pedaço de assoalho de madeira em cada pé, tudo isso em um ambiente onde o mínimo erro provoca um tombo, eu olho para os esquiadores e fico pensando se o esqui não é o único esporte onde caminhar até a linha de partida é mais difícil do que ir até a linha de chegada.

Patinação Artística

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Pelo visto chamam de “ringue de patinação” porque o esporte é um duelo brutal contra a morte. Não basta tudo acontecer em um solo tão duro que existe um continente inteiro feito dele, não, ainda é preciso que 50% do quórum patinador-artístico sustente os outros 50% a uma distância bem dolorida-em-caso-de-queda do chão, frequentemente durante movimentos circulares que ocorrem na saída de uma espécie de sprint (sei lá o equivalente patinartístico) feito de costas e dando um gás na nossa amiga aceleração centrípeta, um verdadeiro arrastão de giros e mais giros, o que pode levar uma simples coceira na mão a transformar o corpo da companheira de time em um projétil teleguiado com direção a justamente ele, o piso de gelo continental, criando a típica situação de força irresistível e objeto irremovível. E, claro, sempre há a possibilidade de girar pro lado errado e ser recepcionado com uma lâminada na cara.

Bobsled

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Aparentemente, a habilidade essencial para competir no bobsled (que pode ser traduzido como ‘trenó’ ou ‘Jamaica Abaixo de Zero’) é ter fé. 75% (ou 50%) do time apenas empurra um trambolho de 150kg por alguns segundos e depois tem fé que 4 pessoas vão se encaixar dentro dele como um Tetris humano e depois têm fé que o piloto não vai se confundir entre esquerda e direita a 160km/h. Já o piloto, que decora as curvas antes da competição pra saber pra onde/quando virar, tem fé que sua memória não vai pregar uma peça nele mesmo, ou seja, o piloto de ontem de noite é tão importante quanto o piloto do momento, ou seja, ele se encontra em uma espécie de conexão mística com o seu eu de épocas passadas, no que só pode ser definido como um grande exemplo de espiritismo esportivo. No fim das contas, tudo meio que se resume a despencar do alto de uma montanha e acreditar que vai dar certo.

Snowboard

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Não consigo deixar de pensar que o snowboard é o primo cool do esqui. As roupas são largonas e despojadas, camisetas por cima de casacos, calças que parecem penduradas por uma espinha na cintura, como se a galera do skate tivesse ligado o ar-condicionado. A própria tábua de assoalho exigida possui um formato sinuoso e suingado e não lembra algo tirado à força de uma sala de estar dos anos 50. Existe um estilo que parece intrínseco ao esporte, no sentido de que a competição é talvez menos importante do que toda a atmosfera snowbórdica que envolve ela, essa celebração à vida guiada por Red Bulls e Go Pros e óculos espelhados, e a impressão é a de que um dos principais pontos de toda esse mise-en-scène é lembrar você que você não faz parte da turminha.

Salto de esqui

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O salto de esqui nasceu quando, no século XIX, alguém percebeu que aquelas coisas compridas usadas nos pés por esquiadores eram menos um acessório esportivo e mais um trem de pouso.

¹ Cuja grafia antes era Pyeongchang, com a letra C minúscula, mas alteraram para ninguém confundir com Pyongyang, capital da Coréia do Norte, no que deve ser o equivalente geográfico a registrar alguém com o nome de Thyago.