Ontem eu tomei vergonha na cara e participei do CMA. Sei que o primeiro passo para resolver um problema é admitir que ele existe, mas sou o primeiro a admitir que admitir é um problema. No momento em que você conta a verdade a si próprio, está sendo ao mesmo tempo o causador e o receptor da dor, exatamente como acontece quando decide trocar o plano do telefone celular, e por isso meu relacionamento com o CMA até hoje foi igual ao meu relacionamento com dinheiro: à distância.

CMA, como você deve saber, é sigla para Costas Molhadas Anônimos. Um grupo de apoio dedicado às pessoas que não conseguem combater o senegalesco verão portoalegrense sem cicatrizes – no caso, uma mancha de suor, grande ou pequena, que fica no meio das costas da camiseta/camisa/vestido/etc. De novembro a fevereiro (e às vezes em junho, cortesia do aquecimento global), toda vez que essas pessoas saem na rua elas experimentam um desconfortável processo de suor que culmina nela, a inevitável, a terrível, a opressiva, a mancha de suor.

O grupo do CMA se reúne todas as terças ali perto da Farrapos, na salinha comercial de um prédio desdentado. Quando cheguei, havia oito pessoas sentadas em um círculo de cadeiras. Um dos presentes compartilhava como a mancha de suor zerou sua conta bancária, sempre exigindo que tivesse mais de uma camiseta disponível onde quer que fosse, salários e mais salários desperdiçados na Renner. Outra disse que o suor resultou em uma alergia no local e que a combinação da coceira com a dificuldade de alcançar a região quase a levou à loucura. Um terceiro, em lágrimas, disse que acordava de noite ouvindo as gargalhadas sádicas dos colegas de trabalho que o chamavam de “Costasratas do Iguaçu”.

Cada história recebia acenos de cabeça de apoio e também despertava algo em mim. Sou um Costas Molhadas desde que me conheço por gente. É uma vida implacável, sempre atirando obstáculo atrás de obstáculo no dia a dia. Ou você já fingiu labirintite para explicar a um cliente importante porque passou a apresentação de novo posicionamento inteira encostado na parede, ou você não entende o tamanho da traição das glândulas sudoríparas.

Quando a reunião acabou, fui falar com Régis, há quatro anos o organizador do grupo. Comentei com ele sobre a minha dificuldade de aceitar a natureza de ser um Costas Molhadas, como isso me deixou inseguro, como eu me sinto um pária onde quer que vá, como decidi comparecer às reuniões após ser pego tentando secar minha camiseta colocando ela atrás da geladeira de um restaurante durante um encontro. Eu estava cansado de sofrer e precisava de ajuda.

Compreensivo, Régis disse que a maioria chega lá após alguma atitude desesperada e extrema como a minha. E que buscar ajuda é essencial, pois a Camiseta Molhada pode ser a porta de entrada para coisas mais pesadas. Quando perguntei que tipo de coisas, ele apenas acenou a cabeça e disse que às quartas-feiras o lugar estava reservado para a DACA (Dependentes Ar-Condicionado Anônimos) e que lá as histórias eram ainda mais tristes.