Durante minha infância, nenhuma forma de ataque era tão implacável quanto a bigorna. Revólveres assustavam, claro, e a perspectiva de um contato físico entre uma bola em movimento e as partes sensíveis do corpo provocava pesadelos, mas ambos fazem parte do mundo, se encaixam em situações do cotidiano. Já a aleatoriedade das bigornas que despencam sobre personagens de desenhos animados é angustiante. Sim, provoca humor, só que a ausência delas em qualquer situação rotineira me fazia pensar que as bigornas tinham apenas um objetivo: provocar dor.

E corro o risco de soar polêmico aqui, mas dor não é legal.

Esse conhecimento precisa ser adquirido, entretanto. Aprendido. Quando somos crianças e adolescentes, a dor é algo que ainda estamos descobrindo. Bater o pé, morder a bochecha, cair em cima do braço, tudo isso são itens que colocamos em uma planilha mental intitulada “Motivos Para Questionar a Existência de Deus (Ou Ao Menos as Intenções Dele)”. Temos uma biblioteca que consultamos inconscientemente sempre que chegamos perto de, sei lá, uma tomada ou um tigre.

Mas não fica no plano material: logo,outras ramificações menos óbvias da dor vão surgindo. Por exemplo, que ela não precisa nascer de um contato físico, como muita gente já aprendeu durante os intermináveis minutos de subida de uma montanha-russa. Ou que pode ser influenciada por fatores externos, como uma criança já aprendeu após bater a cabeça e só chorar depois de ver a mãe em faniquitos.

A última ramificação desse aprendizado, pelo menos em intensidade, se chama incapacitação. Quando a dor impede o livre-arbítrio. Uma maldição que vale para todas as faixas etárias, mas ganha bastante terreno com a idade. É a diferença entre continuar pedalando após cair de bicicleta e acabar preso no sofá por dar um mau jeito nas costas durante uma sessão de ficar sentado.

Por exemplo, lembro de um verão onde meu GPS natural falhou e dobrei a bicicleta tarde demais, errando a entrada de uma casa no litoral e raspando o pé no ferro do portão. Doeu. Sangrou. Precisou de curativo. Mas algumas horas depois estava eu lá no Domingal, a reunião dançante semanal que agitava o mundo adolescente da praia. Com o som alto e os maravilhosos drinques de Coca e Guaraná, nem sentia o pé. Pulava e nem sentia o pé. Dançava e nem sentia o pé. O calor da adolescência vencera as terminações nervosas.

Então, olhei para o lado e vi a garota por quem era apaixonado beijando outra pessoa. E uma bigorna caiu em cima de mim.