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Vale a Pena Fazer de Novo #2 | A Liga Extraordinária

Recapitulando: a ideia dessa série é resgatar das trevas boas propostas cinematográficas que foram aniquiladas por estúdios/cineastas dementes. O pontapé inicial foi sobre 300.

A Liga Extraordinária

(The League of Extraordinary Gentleman, Stephen Norrington, 2003)

Qual é a moral?
É a Liga da Justiça intelectual. Para impedir a ameaça de um misterioso inimigo chamado de O Fantasma, o aventureiro Allan Quatermain (As Minas do Rei Salomão) reúne um grupo de personagens de clássicos britânicos, incluindo Mina Harker (Drácula, de Bram Stoker), Capitão Nemo (20.000 Léguas Submarinas), Dr. Jekyll/Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), Rodney Skinner (O Homem Invisível – com um nome diferente por problemas de direitos autorais), Dorian Grey (O Retrato de Dorian Grey) e Tom Sawyer (As Aventuras de Tom Sawyer. Que não é um clássico britânico, mas está lá porque o patriotismo americano não tem limites (do ridículo)).

O que deu errado?
De forma bem concisa, podemos dizer que: tudo. The Legue of Extraordinary Gentleman é um tratado impecável sobre cair de cara no chão, fracassando miseravelmente desde os CGIs caricaturais até a maquiagem vilipendiosa, desde a trama inconsistente e metralhada de furos até os diálogos de biscoito da sorte, desde as cenas de ação narcolépticas até desenlaces catastróficos. É tanta coisa reunida de forma tão errada que devem ter igrejas por aí encarando o filme como um sinal da chegada do próximo anticristo.

Mas por que outra chance?
Porque é uma ideia brilhante, daquelas que gritam “clear!” e colocam o desfibrilador no peito da criatividade para reanimar ela. As graphic novels que o filme adapta (risos) são simplesmente geniais, tornando as personagens tridimensionais ao manter todo mundo de acordo com as personalidades, crenças e motivações dos livros de onde saíram – sem esquecer de construir uma trama repleta de reviravoltas, onde o mistério resulta em desfechos intensos e surpreendentes. Além disso, humor britânico.

Vale a Pena Fazer de Novo #1: 300

A ideia dessa série é a) finalmente bater o recorde de “série com mais de uma postagem no blog” e b) trazer produções que, ao contrário da maioria dos remakes, realmente mereciam uma nova chance na telona.

300

(idem, Zack Snyder, 2006)

Qual é a moral?
Xerxes, rei da Pérsia e uma versão medieval do garoto dono da bola que exige que todos passem para ele ou não tem jogo, chega até a Grécia e gentilmente pede a submissão dos gregos. Lêonidas, rei de Esparta e o rei da birra, diz que não e leva sua guarda de 300 soldados até o desfiladeiro das Termópilas, onde a superioridade numérica do contingente persa não vale nada porque os caminhos são estreitos e as lutas são em câmera lenta.


O que deu errado?
300 é menos uma história e mais um conjunto de cenas que foram feitas para aparecer no trailer. É um desfile de soluções fáceis, eventos óbvios, diálogos tão explícitos que talvez o MLB tente censurá-los em algum momento, atuações sofríveis, coreografias monótonas, trilha completamente deslocada, masturbação de câmera lenta, mise-en-scène derrotada, decupagem patética. Até a narração em off consegue chafurdar na lama do fracasso (não só o texto, mas também a produção em si da voz), fazendo com que o filme atinja novos níveis de demência. Salva-se de leve a fotografia, e olha que ela não conta porque foi simplesmente escaneada da graphic novel que o filme adapta (risos).


Mas por que outra chance?
Porque 300 de Esparta, a graphic novel que deu origem ao filme, é uma obra brilhante. Envolvente. Cinematográfica, apesar de tudo que a produção cinematográfica fez para mostrar o contrário. Qualquer diretor minimamente alfabetizado em histórias tira dali um daqueles filmes épicos que fazem o espectador sair do cinema querendo comprar uma espada. Repleta de momentos inesquecíveis, personagens interessantes e uma cuidadosa construção de clímax (em certos momentos, dá para sentir o vento soprando nos desfiladeiros), a graphic novel merece uma versão cinematográfica à altura. É um crime deixar tal obra à mercê da paródia anêmica que a Warner Bros. nos empurrou goela abaixo.

Crítica | Capitão América: Guerra Civil finalmente traz um tempero à Marvel

[crítica SEM spoilers. Leia aos goles] Cansados de ver as incursões dos Vingadores resultarem em tragédias como destruição, mortes e A Era de Ultron, os governos do mundo, possivelmente mancomunados com Zack Snyder e a DC/Warner, decidem criar um acordo para supervisionar as ações dos marvetes (só os heróis, e não os fãs, infelizmente). O Capitão América decide ir contra a iniciativa porque bros before govs, mas Tony Stark resolve apoiar o governo e daí, tal qual os trinta minutos que precedem uma partida de futebol no fim de semana, cada um tenta angariar simpatizantes para o seu lado antes do início da contenda.

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Essa obra-prima chamada Bone

Tivesse Bone sido publicado na Idade Média, seu autor, Jeff Smith, fatalmente teria sido queimado na fogueira por bruxaria (desde que pesasse o mesmo que um pato, claro). O que o quadrinista faz com a história dos albinos narigudos Fone, Phoney e Smiley Bone é pura feitiçaria: há um momento na leitura em que a incredulidade faz check in e o leitor se vê obrigado a voltar ao inicio para ter certeza de que é realmente a mesma história, pois a situação tomou proporções tão apoteóticas que é difícil acreditar se tratar da mesma traminha divertida do início. E Jeff Smith faz isso com uma naturalidade que proporciona uma das melhores características de uma história: é imperceptível. De repente, aconteceu.

Conduzida por uma versão mais nariguda e mais moderna do Gasparzinho, a graphic novel se beneficia da ingenuidade e honestidade de Fone Bone, que contamina seu grupo com simpatia e torna até mesmo Phoney Bone, o Donald Trump dos cartoons, alguém gostável. Aliás, a galeria de personagens se mostra incrivelmente nonsense. De um dragão que fuma a uma velhinha superforte, passando pelo visual assustador e inteligência anêmica das criaturas ratazanas, não há uma linha a ser seguida do tipo “ah, todos precisam ter o mesmo número de dedos“. É tipo uma roleta russa de personagens,mas cada uma bem de acordo com a sua personalidade e/ou usando a imagem para subverter a ideia geral (como a expressão tranquila da vovó ao dizer “querida, pode ir seguindo em frente que eu vou virar esse sujeito do avesso“).

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Ah sim: Bone é incrivelmente e genuinamente engraçado. Aquele humor inesperado que consegue surgir de forma orgânica até mesmo em uma sequência tensa (uma perseguição, por exemplo), e que muitas vezes gira em torno da dinâmica fervorosa entre Phoney e Smiley – cujas personalidades distintas carregam praticamente qualquer situação para uma gritaria ensandecida. Ainda assim, é a forma cuidadosa com que Jeff Smith desenrola a história que cativa, permitindo que o leitor se aproxime das personagens, arranque os cabelos de curiosidade com um mistério, se envolva nos romances e, basicamente, tenha a atenção sequestrada pela graphic novel. Tudo  possui uma fluidez surpreendente, tudo converge para que Bone arruine qualquer vida social ou profissional que a pessoa porventura deseje ter.

É lógico que boa parte disso depende das ilustrações, e Jeff Smith simplesmente justifica a invenção do lápis: não só a arte é incrível como ele tem manja muito de progressão quadro a quadro, usando toda essa sabedoria em prol da história, tornando as situações mais interessantes. Inclusive, há algo de cinematográfico na abordagem de Smith, que não tem problema nenhum em desenhar uma queda com a personagem caindo fora de quadro durante 14 quadros seguidos. Ou em mudar personagens de lugar sem alterar o enquadramento, criando um elemento surpresa. Ou, durante uma perseguição noturna na floresta enquanto a chuva castiga o local, produzir essa pequena Mona Lisa abaixo.

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Bone é esquisito demais para ser encaixado em um gênero ou definição específicos (em alguns momentos fica realmente assustador). Mas não se define por isso: o ato de contar uma história parece ser apenas o ato de contar uma história da melhor forma possível, sem se preocupar em ser esquisito ou diferente ou inovador ou qualquer coisa do gênero. A impressão é a de que a ingenuidade e honestidade do protagonista reverberaram pela produção, e o resultado é uma bola de neve de sensibilidade que passa por cima de qualquer pessoa e só solta ela de novo no mundo quando as palavras “The End” aparecem escritas em uma fonte esquisita.

Crítica | Vingadores: Era de Ultron é o petit gateau da Marvel: bom, porém seguro

Após o flashmob alienígena em Nova York no filme anterior, os Vingadores continuaram marcando reuniões para ir atrás do objeto fálico de poder que Loki carregava consigo. Então Tony Stark, que aparentemente nunca leu um romance de ficção científica na vida, cria uma inteligência artificial fodona que decide dar CTRL+ALT+DEL no planeta inteiro.

Um bilhão e meio de dólares. Foi o que o primeiro Os Vingadores arrecadou em bilheterias ao redor do mundo – sem contar DVDs, Blu-Rays e outras quinquilharias merchandísticas. É uma fonte de renda muito grande para que alguém com culhões tente arriscar alguma coisa com ela, que dirá a desculhonada Marvel. Assim, Era de Ultron é exatamente o que se espera dele, acerta exatamente onde se espera que acerte, erra exatamente onde se espera que erre, e, no final, acaba sendo como uma noite de bebedeira: divertido, porém esquecível.

A ideia de ficar no mais do mesmo já estampa a primeira cena do filme, quando as personagens são apresentadas através de um longo plano que, entrincheirado no meio da ação descontrolada, vai “descobrindo” cada uma das pessoas que vingam. A partir daí, é o tradicional combo “piadas + ação + desenvolvimento emocional raso” da Marvel, onde os dois primeiros tiram ótimos momentos da cartola: com um número grande de personagens que se vestem de forma tão peculiar, Era de Ultron consegue estabelecer uma dinâmica divertida entre elas ao colocar questões bem mundanas no meio de uma trama de proporções épicas (como a comparação entre Jane e Pepper) ou apostando nas diferenças de personalidade (Capitão censurando o Homem de Ferro e vice-versa).

Além disso, Whedon manja muito desse lance de diálogos e sabe preparar bem o terreno. Com frequência as piadas são resultado de uma cena objetiva do filme, pipocando de forma inesperada – e isso vale tanto para o falatório (“eu vou me render”, “o martelo sobe no elevador”) quanto para um humor mais, digamos, visceral (“alguém cuide daquele bunker”). E é essa abordagem descontraída, fazendo os heróis parecerem meio que uma mesa de bar na sexta à noite + poderes, que torna as duas horas da película tão agradáveis, embora em um número consideravelmente grande de vezes o humor bata o joelho na quina da mesa (vamos lá, fazer piada com “isso é o melhor que você consegue fazer?”. Estamos em 2015!) e o roteiro force o Homem de Ferro a dizer coisas engraçadinhas que não são tão engraçadinhas assim.

Falando em roteiro, Era de Ultron não tem lá a mais elaborada das histórias e, francamente, nem precisa. Fica bem claro que o lance é dividir o filme em quatro momentos de quebra-pau ensandecido, sendo eles a) o inicial, b) quando Ultron surge, c) quando a Feiticeira brinca com o ID de um dos heróis e d) o clímax, e a função da trama é proporcionar a violência. Ainda assim, mesmo que a suspensão da descrença esteja apagada no canto da festa em semi-coma alcoólico, uma que outra vez dá vontade de abrir os braços e gritar “peraí, vamos lá, né?” (qual é o lance com aquela piscina do Thor? E até quando alguém aparecendo no último segundo vai ser um recurso utilizado?). Por outro lado, a escala da coisa vai crescendo de forma eficiente e o plano geral do Ultron soa como uma ameaça bem palpável.

Infelizmente o Ultron em sim é nada memorável, um amontoado de metal cuidadosamente polido e cortado sem muita personalidade ou motivação – eu realmente não entendi por que ele queria dar cabo dos Vingadores. Aliás, motivação é algo anêmico no filme, passando pelos irmãos Maximoff (que possuem tipo o carro popular das motivações dramáticas) até os conflitos e mesmo flertes do grupo protagonista, que não chegam a soar realmente justificados. O próprio filme perde muito ritmo na inexplicável fuga para um “abrigo”, quando todos têm seus conflitos emocionais acionados no mesmo momento e de forma muito súbita, como se a professora tivesse chegado no meio da ação e falado “pessoal, chega de brincar, agora é hora do lanche emocional”. Como essas questões não chegam a ser realmente muito profundas ou envolventes, já que Era de Ultron não pode tomar nenhuma decisão que incomode muito o público porque bilhões em bilheteria, o intervalo não atinge a intensidade necessária e sua única função no filme acaba sendo permitir que o público vá ao banheiro sem prejuízos.

Já em termos de ação, aventura e tudo mais, não há do que reclamar: Era de Ultron é de encher transbordar os olhos. Alguns problemas menores com o CGI dão as caras (principalmente nos bonecos digitais), mas, de resto, é uma megalomania destrutiva que não tem medo de exagerar, resultando em um frenesi de socos superpoderosos e raios e prédios caindo e efeitos especiais que merecem brindes de cerveja. Whedon consegue mostrar a sintonia dos heróis em coreografias conjuntas – as envolvendo o Capitão e o Thor são particularmente inspiradas – e aproveita o máximo das habilidades de cada um em cena. Além disso, presenteia o público com um travelling circular em câmera lenta que é coisa linda de Deus e já entra para a seleção de melhores cenas do ano. E a produção ainda conta com um elenco entrosado, que possui uma ótima química e carisma , embora quase ninguém ali consiga realmente se destacar – a exceção fica por conta de Elizabeth Olsen, que constrói a Feiticeira com uma vulnerabilidade cativante (percebam que, mesmo nas sequências de luta, ela parece assustada) e é responsável pelo único momento dramático do filme que passa longe de ser estéril.

Pena que o segundo ato do filme se perca em draminhas superficiais e uma tentativa de tornar o Gavião Arqueiro uma personagem mais relevante (a própria Viúva Negra fala uma hora “fingir que ele é importante nos mantém unidos”), tempo que poderia ser melhor aproveitado em arcos dramáticos mais concisos. Aliás, não entendo porque a Viúva não é mais explorada, pois sem dúvidas possui a personalidade mais complexa da turminha e, tipo, é espiã, e personagens espiãs são um poço sem fundo de possibilidades e segredos. No final das contas, ela acaba sendo o melhor canal de identificação do espectador com o filme – algo que talvez melhore ainda mais com a presença da Feiticeira a partir de agora. Mas isso é no futuro; no presente, Vingadores: Era de Ultron (na real não é uma “era”, né? Mal e mal deve ser um mês) não sai dos parâmetros seguros definidos pela Marvel e parece querer jogar pelo empate, e o lance sobre times que entram para empatar é o seguinte: eles nunca conseguem ser cativantes.

Nota: 3/5

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