Recapitulando: a ideia dessa série é resgatar das trevas boas propostas cinematográficas que foram aniquiladas por estúdios/cineastas dementes. O pontapé inicial foi sobre 300 e a saga continuou com o inexplicável A Liga Extraordinária.

O Pagamento

(Paychek, John Woo, 2003)

Qual é a moral?
Um engenheiro aceita um contrato de 2 anos para trabalhar em um projeto onde, ao final, ele terá sua memória relacionada a esses 2 anos apagada para não revelar dados importantes (imaginem a maior ressaca de Tequila do mundo). Entretanto, ao tentar recolher o pagamento, ele descobre não só que renunciou ao dinheiro, mas também que os itens pessoais que havia guardado foram alterados. Como desgraça nunca vem sozinha, o FBI ainda resolve perseguir o fulano por traição – provavelmente porque eles têm um orçamento anual dedicado à “traição” e precisam gastar a verba -, obrigando o tal engenheiro a resolver o mistério enquanto foge em câmera lenta dos agentes em seu encalço.

O que deu errado?
Na verdade, o filme começa bem, e as revelações são tão interessantes que o público até releva o fato do papel principal estar à mercê de Ben Affleck. Mas isso durante dez ou quinze minutos, quando 95% da trama é resolvida e o resto se resume a fugas em câmera lenta e pombas em câmera lenta e motos em câmera lenta (fosse rodado na velocidade normal, O Pagamento teria cerca de 35 minutos de duração). Após a vigésima escapada-no-último-momento, o espectador já começa a procurar o botão pra fazer o filme passar mais rápido (ou seja, na velocidade padrão).

Mas por que outra chance?
Como comentado acima, a ideia de O Pagamento é sensacional (embora bem diferente do conto que adapta). Investir mais no desenvolvimento da trama em vez de, sabe, câmeras lentas pode resultar em uma história com um mistério intrigante, situações imprevisíveis, questionamentos filosóficos acerca da tecnologia, da inevitabilidade das coisas e de como se adaptar ao mundo moderno. Há um clássico de ficção científica aí, e não acho que devemos simplesmente deixá-lo de lado só porque John Woo precisa da sua dose de câmera lenta para não morrer sofrendo ataques de velocidade.