Fico pensando se Netflix, Amazon, Hulu e outros serviços de streaming não estão matando as discussões sobre séries. Com todos os episódios disponíveis a qualquer hora, cada um segue um ritmo diferente e se manifestar sobre uma temporada específica de um série específica parece muito um lance “velho grita com nuvem” – falar sobre um episódio específico, então, é gritar no espaço. Tirando fenômenos como Game of Thrones e A Casa de Papel, não faço ideia do que as outras pessoas estão assistindo e vice-versa.

Talvez seja uma forma da gente aplicar nossos critérios ao mundo, no sentido de que finalmente temos liberdade para determinar as séries que vão guiar nossas interações sociais sobre séries em vez de depender do que a TV quer exibir, ainda que essas interações sejam escassas ou inexistentes, mas a facilidade desconcertante de assistir basicamente qualquer coisa a qualquer hora provavelmente devesse vir acompanhada da reflexão “o que nós perdemos quando optamos pela facilidade desconcertante e vale a pena”?

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Um lance que em incomoda muito no debate sobre blockbusters: com frequência qualquer crítica ao drama subnutrido ou personagens que são soníferos nos filmes (principalmente de super-heróis) é rebatido com um “não faz diferença, o importante é a ação e diversão”. Dar um puxão de orelha nos draminhas rasos ou nas figuras sem graça não significa querer um estudo de personagem de 3 horas de duração.

A franquia Velozes e Furiosos talvez seja o exemplo máximo disso, já que as ótimas sequências de ação são intercaladas com milhares de insuportáveis segundos onde a palavra “família” aparece a cada dezesseis segundos. Se vão fazer um drama de qualquer jeito, por que colocar drama na história então?, eu pergunto. Filmes como Dredd, The Raid, Mandando Bala, Hardcore Henry etc têm uma premissa livre de draminhas e se concentram só na ação descontrolada e são sensacionais. Do outro lado, produções do nível de X-Men: Primeira Classe, Logan e O Cavaleiro das Trevas desenvolveram o drama da narrativa de forma vitoriosa sem deixar a ação de lado – e o resultado beira a obra-prima.

Na questão dos personagens, é absurdo achar que existem apenas filmes com personagens sem graça e filmes cujo objetivo é apenas botar os personagens sob um microscópio. A própria Jyn, de Rogue One¹, possui diversas motivações dramáticas (drama com o pai, drama com o mentor, drama com a perda de alguém, drama por estar sozinha desde os 15 anos, drama por ninguém acreditar nela) e é tão impressionante quanto uma folha de alface em um espeto corrido, já que tudo é feito de modo burocrático e batido.

Um personagem interessante não precisa necessariamente ter todo um lance dramático-complexo-emocionante-profundo rolando. Pode ser só um personagem com características e decisões interessantes. Exemplos²? Indiana Jones, Han Solo, Jack Sparrow, Judge Dredd, John McLane, todo mundo que aparece em Snatch, Scott Pilgrim, James Bond, Homem de Ferro, Sherlock Holmes, a galera do primeiro Guardiões da Galáxia, Ian Malcolm, Henry Jones Sr., Deadpool e por aí vai.

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Assim como existem coisas grandes demais para o nosso coração dar conta, existem opiniões grandes demais para um tweet dar conta.

¹ Se eu não falasse que era de Rogue One aposto que ninguém identificaria quem é, mais uma prova de irrelevância do personagem.
² Falo apenas no âmbito dos filmes.