Em certo momento de Liga da Justiça, Bruce Wayne comenta que o mundo precisa do Superman porque ele é o mais humano dos dois, já que se instalou na Terra, arranjou um emprego, tinha uma namorada, discutia assuntos irrelevantes na internet etc. E é sintomático que, mesmo com dois filmes dedicados ao azulão, um personagem precise explicar verbalmente porque o rapaz é mais humano: com exceção da Mulher-Maravilha, todos os personagens da DC são desprovidos de personalidade, como se existissem apenas enquanto um recipiente para superpoderes. O Superman desse universo não é o Superman, ele é um borrão voando no céu.

A história do filme é um purê de tão batida, mas vamos lá: Lobo da Estepe, vilão com a tradicional armadura cinza e motivação de conquistar o mundo, chega na Terra para recolher três McGuffins e transformar o planeta em mais um filme do Esquadrão Suicida um inferno. Sabendo da balbúrdia, Batman e Mulher-Maravilha começam a reunir seres superpoderosos para lamentar como o Superman faz falta e tentar impedir o vilão, nessa ordem de importância.

O grande problema de Liga da Justiça é o problema básico das produções da DC, a saber, o total desconhecimento de que deviam estar contando uma história. Existe, vá lá, existe uma linha narrativa anêmica que conecta tudo. Mas a impressão é que foram criadas cenas grandiosas separadas para depois encaixotar tudo na força bruta, tipo quando o plugue é um pouco maior do que a tomada e a gente precisa ficar raspando e forçando pra encaixar.

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Com isso, a produção não vai ganhando peso ou intensidade, já que as cenas basicamente correm sozinhas por aí – os momentos de Barry com o pai, por exemplo, servem só para os espectadores suspirarem alto com mais uma cena na prisão onde duas pessoas separadas por um vidro tentam tocar as mãos. Afinal, embora se disfarce como motivação, a cena não tem basicamente nenhuma influência no personagem, na história, no filme, na vida, no universo, enfim, vive enquanto um fantasma assombrando uma casa cheia de efeitos especiais. Somos levados a achar que o Flash percorreu algum arco dramático ao longo do filme, onde se tornou mais responsável, mas isso não acontece efetivamente.

Daí que não há expectativa nenhuma sequer de ver os heróis juntos, já que a dinâmica entre eles está abaixo da linha da pobreza – provavelmente porque, como já foi dito acima, ninguém tem personalidade. Tudo que eles fazem é basicamente ficar jogando a história pra frente com diálogos enquanto o maravilhamento do Flash se torna uma piadinha em.todas.as.cenas.que.o.sujeito.aparece, criando talvez o primeiro personagem de Esquadrão Suicida que não está em Esquadrão Suicida (“olha, é o seu sinal!” “olha, é a batcaverna!“). Em nenhum momento ver a Liga toda junta se torna mais interessante do que ver os heróis sozinhos, e em (quase) nenhum momento ver os heróis sozinhos se torna mais interessante do que contar o número de ácaros na tela do cinema.

Não é uma questão de exigir que o filme seja um estudo de personagens. É só a constatação de que, com uma galera tão CHOCHA, qualquer cena que não envolva explosões não possui nenhum atrativo.

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Exceto que mesmo as cenas com explosões não possuem nenhum atrativo. Até entendo um pouco o Aquaman ser tão birrento; eu também seria assim se vivesse nesse universo cinza e laranja de Liga da Justiça. O filme parece se passar na época da proibição das cores, um mundo quase monocromático cheio de insetos genéricos e lábios feitos de computação gráfica. O CGI, aliás, nunca chega a ser impressionante, talvez pela falta de visão do filme (que não busca nada diferente em termos de design, recauchutando o terceiro ato de Batman vs Superman, que por si só já era algo genérico), talvez porque parte da pós-produção foi feita em um Super Nintendo, sei lá.

Ou talvez porque não há (quase) nenhuma sequência de ação remotamente inspirada. Tudo se resume a pulos, atirar as pessoas/insetos humanos(?) longe e dar um soco em alguém para que a pessoa/inseto humano/vilão genérico voe longe. A imaginação da DC/Warner não vai muito além do bullet time nas cenas do Flash, e  mesmo aqui é só pensando puramente no efeito e investindo zero esforço em mostrar qualquer coisa inspirada. Como se a câmera lenta por si só fosse um ídolo dourado que o público precisa adorar. E esse é o ponto: Liga da Justiça acha que só existir já torna o filme um bom filme.

Diante de tamanha balbúrdia, o elenco não consegue fazer muita coisa – até porque tem gente ali que não é capaz de muita coisa. Ben Affleck parece realmente desconfortável mesmo no papel de Batman, jamais convencendo como o suposto líder da empreitada; Ezra Miller consegue aplicar um timing cômico bom aqui e ali, mas é soterrado por piadinhas sem graça; Henry Cavill continua a milhas de distância de qualquer característica humana, incapaz de desprender um átomo sequer de carisma, tornando o Superman basicamente uma parede falante e voante; Ray Fisher tropeçou em uma expressão de brabo e decidiu manter ela por duas horas; e Jason Momoa, outro com um roteiro anêmico na mão, condensa todas as suas energias em tentar parecer foda.

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Sobra a Gal Gadot, um farol de luz no meio desse cinza inexpressivo. Com uma impressionante presença em cena e intensidade pacas, a atriz puxa Liga da Justiça do lamaçal sempre que pode, adicionando humanidade ao que parece ser um grupo de pessoas, mas é na verdade um grupo de superpoderes. Sua Mulher-Maravilha é serena, densa, consciente do que está acontecendo. E, é bom considerar, também acaba recebendo a melhor caixa de doces do filme: a cena de apresentação dela é a mais empolgante da produção, as coreografias de luta fogem do lance de jogar todo mundo pro alto, e, vejam só, temos até um momento de vulnerabilidade, uma tática eficiente (e pouco usada) para aproximar público e personagem (o momento em que ela empurra Bruce).

Pode ser que parte da bagunça seja por causa da saída de Zack Snyder, que se afastou por problemas pessoais antes das refilmagens. Ainda assim, Liga da Justiça em nenhum momento alcança o tamanho que quer ter. É um filme que tenta desesperadamente ser grandioso o tempo inteiro, aproveitando cada oportunidade para colocar o elenco em uma pose digna de pôster de divulgação, e, com isso, tudo que consegue é não ser grandioso em momento nenhum. Tudo bem que a ideia era ser uma continuação de Batman vs Superman, mas não precisavam ter repetido também os mesmos erros de sempre.

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