O cinema é uma mídia visual. É sempre melhor mostrar as coisas do que informar as coisas. Por exemplo: se o personagem X falar que o protagonista é o motorista mais insano que já apareceu no universo, o espectador vai receber a informação sem que ela tenha um grande impacto; agora, se trocar o diálogo pela sequência inicial de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), o protagonista pode aparecer depois CAVALGANDO UM CARRO e o espectador vai aceitar a situação perfeitamente.

O novo filme de Edgar Wright, aliás, é uma ode à ideia de que a abordagem é mais importante que a trama em si. A história de Em Ritmo de Fuga não poderia ser mais simples – sujeito de boa índole e doutorado em dirigir precisa trabalhar para um chefão do crime até acertar as contas com ele -, mas o que o diretor faz é transformar tudo em uma mistura de Velozes e Furiosos com La La Land (e deixando ambos comendo poeira em suas respectivas áreas).

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Ou seja, a inventividade visual do jovem Edgar, tão saliente em seus filmes anteriores (Scott Pilgrim Contra o Mundo, Chumbo Grosso), aqui é utilizada para criar um universo incrível onde trilha, personagens e sequências de ação incríveis passeiam de mãos dadas pelo parque em um dia de sol. Já nos primeiros segundos, quando o diretor enquadra Baby nos embalos de sábado à noite enquanto espera no carro, dá para perceber que vem coisa diferente pela frente.

O filme mergulha no universo de Baby, e a partir daí enxergamos tudo através desse rapaz apaixonado por música. Edgar Wright coreografa as cenas “felizes” (geralmente com Joe ou Debbie) quase como um musical, chamando em movimentos elegantes, câmeras dançando valsa pelo cenário, trilha complementada por sons diegéticos (campainha, portas, limpadores de para-brisa, o som dos disparos) e até máquinas de lavar fazendo alguma espécie de dois para lá, dois para cá. As canções estão presentes em tudo que Baby vê e faz, e a própria direção de arte faz questão de ressaltar isso, seja na verdadeira muralha de discos que aparece em segundo plano no apartamento do rapaz, seja na forma como a letra da música surge fisicamente em cena – entalhada em árvores, pichada em muros, nas placas de estabelecimentos comerciais ou até nas vitrines de lojas de instrumentos (quando entra um solo de sax, por exemplo).

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Mas a produção vai além e faz uma conexão emocional forte entre seu protagonista e a música. Flashbacks rápidos identificam a origem, a tragédia e o problema que deixaram Baby nessa situação, permitindo que Edgar Wright utilize os elementos apresentados na hora de mostrar como funciona o mundo do rapaz (o momento em que Debbie sai do carro e ouvimos apenas um zumbido, mostrando que a garota é como música para os ouvidos dele, é lindo sem ser piegas e uma forte declaração de amor).

Do outro lado, Em Ritmo de Fuga injeta cocaína na veia das suas sequências de ação. Edgar Wright mantém a câmera estabilizada e não deixa o alto número de cortes jogar o ritmo do filme no precipício do caos, permitindo que o espectador testemunhe com os olhos arregalados as brilhantes coreografias de perseguição. E não se conforma em ficar só nos possantes, garantindo também uma bela perseguição na boa e velha pernada e até mesmo frustrando propositalmente a expectativa do público ao sugerir um clímax que não chega (e, justamente por serem inesperados, esses momentos acabam chocando um pouco mais).

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Já o peso dramático acaba caindo mais nas atuações. Ansel Elgort conduz bem o filme e consegue ser estranho sem soar artificial, além de ter uma química boa com Lily James. Kevin Spacey transmite solidez no papel do cara que manda em todo mundo e John Ham tem carisma para tornar Buddy um pouco mais tridimensional (algo que dá uma dimensão maior a uma reviravolta no terceiro ato), enquanto a imprevisibilidade de Jamie Foxx é responsável por boa parte da tensão da película (embora a personagem dele não encaixe de forma tão orgânica no universo estabelecido). Mas o grande destaque acaba sendo CJ Jones, que, como Joe, despeja vulnerabilidade e carinho suficientes para deixar todo mundo com aquela sensação de “tomara que nada aconteça com ele”.

É verdade que o roteiro acaba pegando a saída do Lugar Comum de vez em quando, e a presença de Bats não condiz muito com a meticulosidade de Doc, mas em geral possui momentos inspiradíssimos (a cena das máscaras é brilhante, bem como a consultoria de “gastronomia”) e diálogos afiados (“não use mais falas de Monstros S.A.”, “He’s a looney. Just like his tunes“). O que Edgar Wright fez, mais uma vez, foi pegar um filme de gênero e imprimir sua visão nele, criando uma obra autoral sem abandonar as características do dito-cujo. E, mais uma vez, provou que sabe muito bem o que está fazendo quando assume a direção.

nota 5