Christopher Nolan é um rebelde. Na época de ouro do streaming, quando ficar em casa vendo séries no Netflix é não só aceitável como cool, o diretor aparece e despeja uma proza técnica tão colossal que jamais deveria ser lançada fora dos cinemas, pois qualquer tela caseira que tenha a ousadia de abrigar o filme provavelmente vai acabar explodindo.

Dunkirk conta a história de soldados britânicos que, assim como eu, estão fazendo de tudo para fugir de uma praia (ao menos o caso deles envolve as divisões alemãs chegando). Encurralados na faixa de areia, quatrocentos mil homens aguardam uma carona para atravessar o Canal da Mancha antes que a resistência francesa seja subjugada e uma troca de culturas nada amistosa comece com os germânicos.

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Nolan aproveita as oportunidades da história para ilustrar a grandiosidade dos acontecimentos e a angústia de todos os envolvidos. Os planos aéreos dignos de serem capa da revista VIP revelam revelam a enormidade das paisagens, mas também a opressão causada pelo cenário, o que aumenta a claustrofobia (há algo muito aterrorizante no oceano sem fim). A própria praia parece quase um purgatório, um lugar branco e inóspito de espera enquanto o céu (carona de barco) ou o inferno (tanques loucos para dar tiro em britânicos e franceses) não chegam. Não à toa, logo no início Dunkirk enquadra os soldados colocando sua câmera atrás de dois mastros, simulando as grandes de uma prisão.

Além disso, por mais bonitos que sejam os planos, por mais bem coreografadas que sejam as sequências, há uma seriedade palpável em cada segundo do filme. Todas as cenas parecem estar nadando com uma bigorna amarrada à perna, o que contribui para a atmosfera de cansaço e desolação total. No universo de Dunkirk, tudo é difícil (mas de uma forma orgânica e natural, não de uma forma Alejandro Iñarritu pré-plano-sequência). Isso envolve o espectador na história, pois cria uma empatia com aquela turma desesperançada – e essa empatia empurra o público para a trincheira de angústia que toma conta das situações (há um momento tão tenso dentro de um encouraçado que cheguei a cuspir água).

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Muito disso se deve ao design de som e à trilha, esta quase onipresente – arrisco dizer que só um plano curtinho no final é DESTRILHADO – e apostando em um crescendo incômodo acompanhado de notas incrivelmente tensas, sem contar aquele tic-tac perturbador. Nolan também investe na câmera na mão para realçar a urgência da escapada, mas nunca perdendo o foco (sem trocadilho) da ação nem sabotando a mise-en-scène. O domínio que ele tem sobre o quadro, sobre o espectador ver tudo da forma que ele quer, é absoluto.

Na real, Nolan e sua equipe estão é endemoniados. Dunkirk tem batalhas aéreas em plena luz do dia, encouraçados virando, explosões em sequência se aproximando, planos aéreos mais abrangentes do que qualquer política social, e tudo é despejado no filme com uma sobriedade impressionante. A montagem confere um ritmo frenético, mas sem apelar para a picotagem descontrolada, e ajuda a fazer com que a atmosfera de perigo iminente nunca saia de cena. Em menos de duas horas de filme a produção conquistou um Evereste técnico.

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Pena que o roteiro não foi chamado para fazer parte dessa turma. Quer dizer, em geral trabalha bem na construção e desenvolvimento das situações, além de possuir alguns momentos realmente inspirados (a forma com que os soldados se levantam após as chuvas de bombas, mostrando o quanto estão acostumados com o perigo e o sofrimento, é desoladora). Mas toda a trama do barco parece ter sido pensada em um domingo de ressaca bíblica: sem absolutamente nada de imaginação, percorre o filme de forma enfadonha e diluindo a tensão geral. Da mesma forma, há uma pieguice desnecessária em alguns momentos, povoada por diálogos esquecíveis, que se encontra a oceanos de distância da atmosfera geral da produção.

A não-linearidade também atrapalha um pouco o impacto de algumas situações, embora funcione bastante na hora de mostrar a espera como um pesadelo. Ainda assim, Dunkirk é uma obra impressionante. Grandiosa. Feita para ser vista em telas megalomaníacas, com sistemas de som pulsando ensandecidamente. Christopher Nolan praticamente exige que o espectador vá ao cinema, enfrente as filas, pague caro na pipoca, tenha paciência para enfrentar a infinidade de trailers e propagandas. Mas o que ele devolve é puro espetáculo.

nota 4