Melhor que Nada - Página 2 de 165 - Ou pior que tudo

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Diálogos em Chamas #2 – Simplesmente Amor

Já que o post inaugural da série falava sobre as relações destrutivas de A Rede Social, nada melhor do que equilibrar com as relações destrutivas-às-vezes-mas-amorosas-em-geral do filme que todo mundo vê (ou deveria ver) todo Natal, certo?

Certo. A cena aqui é o momento em que Jamie volta pra casa com o objetivo de ver se a namorada melhorou e encontra seu irmão na sala, sem suspeitar que ele e a moça estão prestes a cometer o ato físico do amor. O lance segue assim (tradução minha, vocês podem assistir aqui se quiserem (entre 0:47 e 1:14)):

– Olá. O que diabos você está fazendo aqui?
– Eu só–só dei uma passada pra pegar uns CDs velhos emprestados.
– A mulher da casa te deixou entrar, certo?
– Sim.
– Ótimo. Garota solícita. Esse é bom (mostrando um CD).
– Sim.
– Eu só pensei em dar uma passada aqui antes da recepção pra ver se ela melhorou. Escuta, eu estava pensando. Acho que devíamos levar a mamãe pra jantar no aniversário dela na sexta. O que você acha? Eu sinto que fomos filhos meio ausentes esse ano.
– Ok. Pode ser. Parece meio chato, mas tudo bem.
– (voz feminina fora do quadro) Se apresse garotão! Estou pelada e quero você pelo menos duas vezes antes do Jamie chegar em casa!

Ou seja, em menos de um minuto o filme consegue:

  1. Informar de um jeito orgânico que é o irmão de Jamie quem está presente ali (qualquer roteirista preguiçoso colocaria algo do tipo “ei o que meu irmão mais novo está fazendo aqui?“).
  2. Mostrar a naturalidade e a dinâmica entre os irmãos, sugerindo que eles são próximos (Jamie nem questiona a presença do outro e até sugere um CD, como se indicações fossem algo corriqueiro entre eles), o que torna a traição ainda mais impactante.
  3. Caracterizar Jamie como uma pessoa sensível e empática, pois parte dele a preocupação com a mãe (ao passo que o irmão parece achar um fardo). É importante porque mais tarde essas características do personagem, já estabelecidas pelo filme, vão reforçar a conexão com Aurelia.
  4. Informar o espectador de que, óbvio, Jamie descobriu que sua namorada estava traindo ele com o irmão.
  5. Entreter e divertir.

É por isso que bons roteiristas fazem a diferença. E não esqueça: estamos em dezembro, até o dia 31 é obrigatório ver Simplesmente Amor pelo menos uma vez.

Fernandinho Abaixo de Zero

O relógio marcava 27 décadas do primeiro tempo quando Fernandinho, emulando Derice e Yul e Junior*, correu os 100m rasos em menos de 10 segundos e demoliu as redes adversárias. Quase 15 minutos depois, Luan entrou na área provocando choque anafilático na defesa do Lanús e completou encobrindo o goleiro e o talento do Messi. A partir daí, tudo virou demência alcoólica e descontrole, qualquer armadilha do acaso sendo desarmada pela lucidez assustadora do Arthur. Na minha cabeça cheia de sinapses embriagadas, o apito final do juiz e o abraço a desconhecidos na Goethe ocorreram praticamente na mesma hora, o longo rio do tempo se tornando basicamente uma piscina de 50 litros onde tudo era condensado e resumido e acumulado e concentrado e embolado e martelado ao redor de uma única palavrinha: tri.

*quem viu o filme lembra que Sanka era só o piloto, não corria, por isso está ausente da lista.

O gol impossível

Na hora foi até meio difícil de entender direito. O Edílson levantou na área uma bola cuja trajetória era digna de problema na prova de física, certo?, e daí o Jael pegou esse carvão e transformou em um diamante para o Cícero, que por sua vez meio que bateu forte pro chão pra tirar do goleiro, mas a bola acabou ricocheteando nele, o que não impediu ela de seguir em direção às redes porque a física mecânica é linda. Fica até meio difícil de acreditar. Não é possível que aquela bola despretensiosa do Edílson, quase lá no meio de campo, acabe resultando em gol. Não é possível que Jael, que divide comigo o mesmo número de gols feitos pelo time profissional do Grêmio, tenha aniquilado a defesa Lanústica com uma assistência de cabeça magistral. Não é possível que Cícero, cuja participação como centroavante no jogo anterior havia sido a antítese de epilepsia, tenha incorporado o arquétipo definitivo do centroavante. Não é possível que tanta coisa tenha funcionado na hora certa, principalmente quando nada mais parecia funcionar. Não é possível que uma bola dessas tenha salvado o jogo. Não é possível que o Grêmio, até ontem caminhando em vão por ruas de tráfico à procura de uma dose acachapante de título, esteja correndo em direção ao tricampeonato da Libertadores. Mas foi. E talvez seja.

Crítica | Liga da Justiça quer muito ser grandioso (mas não é)

Em certo momento de Liga da Justiça, Bruce Wayne comenta que o mundo precisa do Superman porque ele é o mais humano dos dois, já que se instalou na Terra, arranjou um emprego, tinha uma namorada, discutia assuntos irrelevantes na internet etc. E é sintomático que, mesmo com dois filmes dedicados ao azulão, um personagem precise explicar verbalmente porque o rapaz é mais humano: com exceção da Mulher-Maravilha, todos os personagens da DC são desprovidos de personalidade, como se existissem apenas enquanto um recipiente para superpoderes. O Superman desse universo não é o Superman, ele é um borrão voando no céu.

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Vale a Pena Fazer de Novo #1: 300

A ideia dessa série é a) finalmente bater o recorde de “série com mais de uma postagem no blog” e b) trazer produções que, ao contrário da maioria dos remakes, realmente mereciam uma nova chance na telona.

300

(idem, Zack Snyder, 2006)

Qual é a moral?
Xerxes, rei da Pérsia e uma versão medieval do garoto dono da bola que exige que todos passem para ele ou não tem jogo, chega até a Grécia e gentilmente pede a submissão dos gregos. Lêonidas, rei de Esparta e o rei da birra, diz que não e leva sua guarda de 300 soldados até o desfiladeiro das Termópilas, onde a superioridade numérica do contingente persa não vale nada porque os caminhos são estreitos e as lutas são em câmera lenta.


O que deu errado?
300 é menos uma história e mais um conjunto de cenas que foram feitas para aparecer no trailer. É um desfile de soluções fáceis, eventos óbvios, diálogos tão explícitos que talvez o MLB tente censurá-los em algum momento, atuações sofríveis, coreografias monótonas, trilha completamente deslocada, masturbação de câmera lenta, mise-en-scène derrotada, decupagem patética. Até a narração em off consegue chafurdar na lama do fracasso (não só o texto, mas também a produção em si da voz), fazendo com que o filme atinja novos níveis de demência. Salva-se de leve a fotografia, e olha que ela não conta porque foi simplesmente escaneada da graphic novel que o filme adapta (risos).


Mas por que outra chance?
Porque 300 de Esparta, a graphic novel que deu origem ao filme, é uma obra brilhante. Envolvente. Cinematográfica, apesar de tudo que a produção cinematográfica fez para mostrar o contrário. Qualquer diretor minimamente alfabetizado em histórias tira dali um daqueles filmes épicos que fazem o espectador sair do cinema querendo comprar uma espada. Repleta de momentos inesquecíveis, personagens interessantes e uma cuidadosa construção de clímax (em certos momentos, dá para sentir o vento soprando nos desfiladeiros), a graphic novel merece uma versão cinematográfica à altura. É um crime deixar tal obra à mercê da paródia anêmica que a Warner Bros. nos empurrou goela abaixo.

Eu não ia beber hoje

Em uma daquelas complexas narrativas não-lineares, o Grêmio entrou em campo aos 45 do segundo tempo e com o Barcelona a meros ÁCAROS da classificação, um buraco de minhoca futebolístico que obrigou a equipe gaúcha a fazer concorrência à SpaceX em cada jogada e apostar na estratégia de parecer assustada. Somente após cerca de 65 minutos de 45 do segundo tempo, um gol à la loca do Barcelona e uma latinha de cerveja desbravando o esôfago é que os 10 jogadores tricolores e o Ramiro se deram conta do que estava acontecendo. A partir daí, e apesar da parcialidade do árbitro Roberto Tobar Caicedo, o time sofreu um daqueles ataques súbitos de sobriedade (quem já ficou bêbado conhece) e levou a partida numa boa, inclusive com Jael quase empatando o jogo, evento que certamente derrubaria o estádio e as leis da probabilidade. Recuos acidentais do Edílson à parte, quando o apito final soou o Grêmio estava na sua quinta final de libertadores e eu senti que não poderia fazer outra coisa: abri uma latinha de cerveja.

Grêmio escalado para palestrar sobre objetividade no próximo TED.

O Barcelona entrou em campo a passos largos, procurando ganhar terreno na disputa a partir das doses a mais de Whey Protein ingeridas pelos seus jogadores, o que realmente resultou em mais volume de jogo (principalmente no início dos dois tempos). Mas, como diz o ditado, “volume é o caralho”: após sair na frente em um de seus já clássicos gols de pinball, o Grêmio ampliou quando Edilson, percebendo que o goleiro equatoriano estava sob efeito de cogumelos (e que o cálculo da barreira havia sido feito por alguém de humanas), disparou uma má notícia rasteira no canto da goleira. O lateral gremista, aliás, se transformou em um dos heróis de A Ilíada impulsionados pelos deuses para cagar todo mundo a pau, pois também conspirou com Luan para causar o terceiro gol em uma jogada que Quentin Tarantino faria questão de filmar em 70mm. Apesar do Barcelona insistir mais, as jogadas criadas pelo Grêmio eram certeiras – faltou muito pouco para o time voltar de Guayaquil pagando excesso de bagagem pelo número de gols.

Pena que a zaga entrou em colapso em alguns momentos, deixando equatorianos dominarem a bola dentro da área como se fosse uma região livre de conflitos. Ainda assim, quando todo o resto falhou, Marcelo Grohe fundou uma nova religião graças a um milagre capaz de provocar um sorriso espontâneo nos maiores goleiros de todos os tempos.

 

 

Como o Kindle fritou meu cérebro.

Comprei um Kindle. Faz cerca de um mês já, e parecia uma ótima opção, já que eu tinha e-books da Amazon que estavam no limbo (ler no notebook só parece pior do que ler no telefone), é uma opção leve, fácil e prática de leitura e estava em uma promoção cativante.

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O tempo (quase) destrói tudo

Há alguns meses, com o toque de bola envolvente, a defesa sólida, o meio de campo conquistando espaços como Napoleão e o ataque eloquente, o Grêmio seria favorito contra qualquer time da América do Sul. Principalmente contra o Grêmio desta noite, uma esquadra com pernas de gelatina cuja confiança vai render ao clube o Nobel de Física: é a menor partícula já descoberta pelo homem.

Essa incapacidade de realizar qualquer coisa minimamente arriscada impediu o Grêmio de realizar qualquer coisa minimamente efetiva. O Botafogo dominou o primeiro tempo e só não marcou porque claramente entrou em campo com a intenção de empatar, e existe alguma punição metafísica para quem entra em campo querendo empatar.

Mais do que a ausência de Luan, Pedro Rocha ou de Panoramix, o druida cuja poção mágica transformava o ramiro em Ramiro, foi o retorno do Grêmio aos romances da adolescência – aquela filosofia onde qualquer ato para conquistar o objeto romântico é evitado porque temos certeza de que ele/ela JÁ ZARPOU – que transformou o time em uma sequência de decisões equivocadas. Dentro de campo, a chegada da bola aos pés de algum jogador gremista equivalia à chegada de Cthulhu.

Agora cabe a nós, torcedores, aceitar as cicatrizes do time e se resignar com o fim da Era de Aquário e a volta da era dos colapsos nervosos. O ruim é que isso torna a equipe mais instável e vulnerável para as próximas partidas. O bom é que, às vezes, só precisa de um argentino naturalizado paraguaio pulando por cima dos zagueiros para seguir em frente.

Vende-se lote de terra em Grêmio x Botafogo

Eram as quartas de final da Libertadores, mas Grêmio e Botafogo inovaram ao entrar com uniformes magnetizados, dois polos negativos mantendo os jogadores de ambos os times afastados e abrindo espaços generosos no campo. Isso facilitaria a vida de qualquer árbitro, mas o juiz venezuelano que soprava o apito foi totalmente dominado pela demência, embarcando em um voyeurismo descontrolado e se limitando a observar: não marcou pênalti claríssimo para o Botafogo, deixou de marcar um para o Grêmio, ignorou faltas e cartões, enfim, conseguiu ser o destaque negativo de um jogo onde Cortez tentou afastar a bola usando o bullet time de Matrix.

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Só 3 coisas param no ar: helicóptero, beija-flor e o cérebro do Cortez.

Os relvados abertos também ajudaram a identificar a principal característica das equipes, que no Grêmio era uma dificuldade angustiante de dominar a bola e no Botafogo era uma capacidade nuclear de errar passes (embora o Grêmio também tenha errado passes ridículos e o Botafogo também tenha errado domínios ridículos). O jogador com mais espaço de todos, entretanto, era o volante Arthur, que olhava para Jaílson e Leo Moura e Fernandinho e Ramiro e Cortez e Barrios e só via uma vastidão de terra devastada e estéril. Com o 0 a 0 no jogo de ida e a obrigação de marcar um gol no jogo de volta, a estratégia mais adequada para a partida na Arena parece ser cerveja.

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