Foi nesse limbo, nesse buraco interdimensional entre o fim dos 90 minutos de partida e a continuidade da vida, nesse intervalo de tempo que não é o jogo mas é o jogo, nesse universo alternativo de Donnie Darko, nesses momentos que existem apenas em uma dimensão própria, nessa dilatação do espaço-tempo futebolístico, nesses 10 anos de envelhecimento, nesse sofrimento tonitruante chamado prorrogação que Everton cebolinha entrou na área, gingou e decretou que o Dia de Los Muertos passaria a ser em novembro, pontuando sua decisão com um fogo de artifício disparado no ângulo. O Grêmio havia passado boa parte da hora e meia anterior de ressaca, seguindo em frente de forma meio trôpega, eventualmente precisando de uma intervenção cirúrgica por parte de Bruno Cortez, esse grande cirurgião sem diploma, para continuar vivo. E a prorrogação expande o horror, espalhando angústia como se fosse fake news no Facebook. Mas era um daqueles dias de consagração. E foi assim que Everton, um reserva iluminado, e provavelmente iluminado pelo reflexo do sol na careca do espartano Jael, foi assim que Everton aniquilou o totalitarismo do empate e pavimentou a estrada para o descontrole absoluto. Entre mortos e feridos, entre falhas e glórias, entre desafios e conquistas, entre úlceras e marcapassos, a trajetória gremista também foi prorrogada.