Melhor que Nada - Ou pior que tudo

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À Deriva

– Sabe o que eu queria agora?
– O que?
– Um pudim.
– É sério isso, Evair?!
– Mas não qualquer pudim. Pudim de mãe, sabe? Cremoso. Saboroso. Com cobertura de amor.
– Você não queria um navio pra nos tirar dessa canoa furada, então?
– Já falei que não está furada.
– Você entendeu.
– E não é uma canoa, é um bote.
– Você entendeu!
– É que tô meio de saco cheio de comida enlatada. Por que não podemos pescar um peixe?
– Você não sabe pescar.
– A necessidade é a mãe do aprendizado!
– Você também não gosta de peixe.
– Bem, a necessidade é o primo distante do paladar.
– Então tenho uma boa notícia pra você: eu estava organizando as coisas que recuperamos do naufrágio e percebi que logo vamos ficar sem comida enlatada.
– Ótimo. Se comer mais feijão enlatado, acho que vou morrer.
– Você não está entendendo bem as coisas.
– E você sempre foi muito pragmática, sem imaginação.
– Pelo amor de Deus, Evair! Nós estamos em um bote. À deriva. No oceano Pacífico. Você precisa parar de sonhar com coisas que não vão nos ajudar. Volta pra realidade!
– Já entendi. Esse sermão todo na verdade é sobre o grupo a capella que montei, né?
– Não é não. Mas também não é muito pior.
– Você reclama que eu fico muito acomodado, mas quando eu tento fazer algo, ah, daí tudo muda, não dá nenhum apoio.
– Eu quero que você faça algo pra crescer pessoalmente ou profissionalmente. Isso é um hobby.
– Bem, eu sou a única pessoa em um raio de um oceano inteiro que terminou a faculdade!
– Você sabe que eu tive que sair. Meu irmão precisava de ajuda!
– É claro que precisava. Ele sempre precisou. Vocês mimam demais aquele moleque e vão correndo ajudar quando surge a primeira dificuldade.
– É por isso que você nunca quer passar o Natal com a minha família, então? E eu acabo tendo que aguentar as sobremesas emporcalhadas de açúcar da sua mãe?
– Eu sabia! Finalmente a verdade resolve aparecer!
– E tem mais, eu vi ela jogando no lixo o blusão que dei de presente. Eu vi!
– Ela jamais faria isso. Você está tomada pela amargura.
– Então é só chamar a sua mãe pra me entupir de açúcar como ela faz com tudo!
– Escuta aqui Ana Flávia, o que a minha mãe f–
– Evair!
– Agora vai ficar me interrompendo, é? Chegamos nesse nível de desrespeito? Dez anos de casados pra chegar no primeiro problem–
– Evair, cala a boca, olha ali um navio!
– Um navio!
– Um navio!
– Estamos salvos! Aqui! Aqui! Abana mais esses braços molengas.
– Bem, eu sou a única pessoa em um raio de um oceano que faz musculação.
– Olha pra cá, seu filho da p–Nos viram! Estão vindo nessa direção.
– É um milagre, Evair. Um milagre.
– Desculpa pelas coisas que eu falei. Foi bobagem. Eu te amo.
– Eu também te amo. Não vamos mais brigar, tá? Eu te amo.
– Ana Flávia olha o nome!
– Que foi?
– O navio! O nome do navio!
– Onde?
– Ali na lateral! Tá escrito o nome do navio. O nome do navio, Ana Flávia! O nome do navio é Pudim dos Oceanos.
– Sabe do que mais? Acho que vou esperar o próximo.

Quando meus polegares opositores me traíram

Foi durante a faculdade, mais especificamente em uma cadeira de Cibercultura, e mais especificamente ainda em uma lan house, que tive o primeiro contato com a espécie homo gamer intensus. Sempre fui do time do videogame – tive Atari, Master System, Mega Drive, Nintendo 64, PS2, X360 e agora um PS4 -, mas esse contato com a juventude encarnada em Call of Duty¹ ilustrou, através de sucessivas mortes nas disputas, o quanto a minha casualidade videogamística estava defasada diante da blietzkrieg juvenil.

E havia um elemento que deixava tudo ainda mais desparelho: o mouse.

Vindo da escola filosófica dos consoles, a minha vida sempre foi simples: a mão esquerda controla o boneco, a mão direita aperta os botões. Isso acabou decidindo que um lado do corpo iria interagir com as nuances da movimentação e o outro iria marretar coisas. Assim, quando fui jogar na lan house, o advento do mouse na configuração dos jogos representou um obstáculo muito maior do que qualquer Monkey Island pensou em atirar no caminho. Parecia existir um rodovia com anos-luz de distância entre objeto e coordenação motora. Mas ei, eu sou da gangue dos consoles. O mouse não representa uma ameaça para mim.

Só que o destino, esse rapaz que fica bêbado e sai pela rua roubando cones, decidiu puxar o meu tapete. E lá vieram os controles com dois direcionais desfazer qualquer confiança que eu tinha diante de um jogo virtual, pois essa disposição amaldiçoada exige que o polegar direito seja usado para movimentar coisas, e adivinha, o meu polegar direito movimenta coisas sem ter a mínima noção de direção. No FIFA, por exemplo, o direcional direito abriga os comandos responsáveis por dribles – mas eu nunca consigo dar o mesmo drible duas vezes, ainda que tentando fazer o mesmo movimento. Em jogos de tiro, ele controla a câmera ou a mira, e daí a sensação que eu tenho é a de tentar achar uma agulha em um palheiro só que esse palheiro não é só um palheiro é o oceano Atlântico que se transformou todo em um enorme palheiro.

É uma questão que vai além da ruindade em mexer no direcional direito, entrando no terreno da incompatibilidade intrínseca, no sentido de que são dois elementos de mundos diferentes que não fazem sentido juntos, no sentido de que usar o polegar direito pra movimentar o direcional direito é como tentar ligar o carro colocando uma banana na ignição. E só o que resta fazer é lamentar por mais um momento na história onde os polegares opositores solidificaram a evolução da espécie.

¹Ao menos acho que era Call of Duty. Sei que era um jogo de guerra, então leve em consideração que podia ser um Medal of Honor da vida ou qualquer outra coisa onde a última tendência são calças camufladas.

Omelete às 9 da manhã

Fico pensando se Netflix, Amazon, Hulu e outros serviços de streaming não estão matando as discussões sobre séries. Com todos os episódios disponíveis a qualquer hora, cada um segue um ritmo diferente e se manifestar sobre uma temporada específica de um série específica parece muito um lance “velho grita com nuvem” – falar sobre um episódio específico, então, é gritar no espaço. Tirando fenômenos como Game of Thrones e A Casa de Papel, não faço ideia do que as outras pessoas estão assistindo e vice-versa.

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Vale a Pena Fazer de Novo #3 | O Pagamento

Recapitulando: a ideia dessa série é resgatar das trevas boas propostas cinematográficas que foram aniquiladas por estúdios/cineastas dementes. O pontapé inicial foi sobre 300 e a saga continuou com o inexplicável A Liga Extraordinária.

O Pagamento

(Paychek, John Woo, 2003)

Qual é a moral?
Um engenheiro aceita um contrato de 2 anos para trabalhar em um projeto onde, ao final, ele terá sua memória relacionada a esses 2 anos apagada para não revelar dados importantes (imaginem a maior ressaca de Tequila do mundo). Entretanto, ao tentar recolher o pagamento, ele descobre não só que renunciou ao dinheiro, mas também que os itens pessoais que havia guardado foram alterados. Como desgraça nunca vem sozinha, o FBI ainda resolve perseguir o fulano por traição – provavelmente porque eles têm um orçamento anual dedicado à “traição” e precisam gastar a verba -, obrigando o tal engenheiro a resolver o mistério enquanto foge em câmera lenta dos agentes em seu encalço.

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O paradoxo Yellow Ledbetter

De acordo com essa fonte inquestionável chamada internet, Yellow Ledbetter é a música mais tocada pelo Pearl Jam na hora de encerrar shows (quase o dobro da segunda colocada, Rockin’ in the Free World). A canção é lado B do single de Jeremy, essa sim um arrasa-quarteirão que deixou a grunjarada em polvorosa lá no início dos anos 90, e a ausência de Yellow Ledbetter no Ten é uma daquelas demências inexplicáveis, principalmente quanto tínhamos a pavorosa Why Go e a desnecessária Garden.

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Do que os atletas de inverno estão fugindo?

Não sei se vocês já perceberam, mas os esportes das Olimpíadas de Inverno são menos um lance de competição e mais um lance de escapar: a grande maioria das atividades envolve descer por alguma formação geológica/humana cheia de neve o mais rápido possível, como se fosse o 007 fugindo de algum esconderijo nos alpes (Roger Moore se a fuga for de esqui; Pierce Brosnan se for de patinação artística com paraquedas).

Aliás, com a chegada das Olimpíadas de Inverno de 2018 em PyeongChang¹ é impossível não se atentar a algumas características interessantes desses esportes tão distantes da nossa realidade (geograficamente e climaticamente).

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A Bigorna

 

Durante minha infância, nenhuma forma de ataque era tão implacável quanto a bigorna. Revólveres assustavam, claro, e a perspectiva de um contato físico entre uma bola em movimento e as partes sensíveis do corpo provocava pesadelos, mas ambos fazem parte do mundo, se encaixam em situações do cotidiano. Já a aleatoriedade das bigornas que despencam sobre personagens de desenhos animados é angustiante. Sim, provoca humor, só que a ausência delas em qualquer situação rotineira me fazia pensar que as bigornas tinham apenas um objetivo: provocar dor.

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Bem-vindos ao Costas Molhadas Anônimos

Ontem eu tomei vergonha na cara e participei do CMA. Sei que o primeiro passo para resolver um problema é admitir que ele existe, mas sou o primeiro a admitir que admitir é um problema. No momento em que você conta a verdade a si próprio, está sendo ao mesmo tempo o causador e o receptor da dor, exatamente como acontece quando decide trocar o plano do telefone celular, e por isso meu relacionamento com o CMA até hoje foi igual ao meu relacionamento com dinheiro: à distância.

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A jornada do herói no retorno do litoral

1. Mundo Comum

Assentado nas praias do litoral, o herói desfruta de uma existência cotidiana regada a churrascos, cerveja de latão direto do isopor e, ao contrário do que ocorre na cidade, ventos.

2. O Chamado da Aventura

Essa invenção humana chamada “tempo” convoca o herói a voltar à selva de pedra para ajudar a girar a roda do capitalismo.

3. Recusa do Chamado

O herói adia ao máximo possível o retorno por medo de perder o último churrasco do fim de semana (ou do feriado).

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O mais importante do Natal são os presentes.

Parece mister subjugar todas essas décadas de filmes natalinos e especiais do Roberto Carlos, de discursos edificantes e imagens com erros gramaticais no WhatsApp, e reconhecer que, no fim das contas, o Natal é mesmo sobre os presentes. A ceia chega perto, mas ainda há um quê autoral nos pratos que polvilham a mesa durante o feriado mais espiritual e comercial do ano. Os presentes não.

Cada empreitada natalina exige sangue, suor, lágrimas e reais de seus praticantes. Na melhor das hipóteses, é um processo repleto de gatilhos de angústia: será que a camiseta é M ou G? Esse livro parece o tipo que fulano ou fulana gostaria? Qual dessas cervejas é realmente boa e qual as pessoas só dizem que é boa por ser diferente? Minha nossa, será que eu comprei o tamanho certo de sabre de luz?

Na pior, é uma jornada colérica por exércitos demoníacos se arrastando em círculos do inferno em uma corrida contra o tempo ao redor de praças de alimentação. Não há ato maior de amor incondicional do que comprar um presente em cima da hora: é o abandono total das faculdades de autopreservação e um mergulho seminal em direção ao perigo. O pináculo de colocar os outros à frente de si mesmo.

Se você realmente quer saber o significado do Natal, saia imediatamente de casa e vá em direção ao shopping armado apenas com uma vaga ideia do que seria um bom presente pra uma pessoa que você gosta. O resto é um aprendizado que nenhum especial natalino consegue superar.

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