Melhor que Nada - Ou pior que tudo

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O tempo (quase) destrói tudo

Há alguns meses, com o toque de bola envolvente, a defesa sólida, o meio de campo conquistando espaços como Napoleão e o ataque eloquente, o Grêmio seria favorito contra qualquer time da América do Sul. Principalmente contra o Grêmio desta noite, uma esquadra com pernas de gelatina cuja confiança vai render ao clube o Nobel de Física: é a menor partícula já descoberta pelo homem.

Essa incapacidade de realizar qualquer coisa minimamente arriscada impediu o Grêmio de realizar qualquer coisa minimamente efetiva. O Botafogo dominou o primeiro tempo e só não marcou porque claramente entrou em campo com a intenção de empatar, e existe alguma punição metafísica para quem entra em campo querendo empatar.

Mais do que a ausência de Luan, Pedro Rocha ou de Panoramix, o druida cuja poção mágica transformava o ramiro em Ramiro, foi o retorno do Grêmio aos romances da adolescência – aquela filosofia onde qualquer ato para conquistar o objeto romântico é evitado porque temos certeza de que ele/ela JÁ ZARPOU – que transformou o time em uma sequência de decisões equivocadas. Dentro de campo, a chegada da bola aos pés de algum jogador gremista equivalia à chegada de Cthulhu.

Agora cabe a nós, torcedores, aceitar as cicatrizes do time e se resignar com o fim da Era de Aquário e a volta da era dos colapsos nervosos. O ruim é que isso torna a equipe mais instável e vulnerável para as próximas partidas. O bom é que, às vezes, só precisa de um argentino naturalizado paraguaio pulando por cima dos zagueiros para seguir em frente.

Vende-se lote de terra em Grêmio x Botafogo

Eram as quartas de final da Libertadores, mas Grêmio e Botafogo inovaram ao entrar com uniformes magnetizados, dois polos negativos mantendo os jogadores de ambos os times afastados e abrindo espaços generosos no campo. Isso facilitaria a vida de qualquer árbitro, mas o juiz venezuelano que soprava o apito foi totalmente dominado pela demência, embarcando em um voyeurismo descontrolado e se limitando a observar: não marcou pênalti claríssimo para o Botafogo, deixou de marcar um para o Grêmio, ignorou faltas e cartões, enfim, conseguiu ser o destaque negativo de um jogo onde Cortez tentou afastar a bola usando o bullet time de Matrix.

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Só 3 coisas param no ar: helicóptero, beija-flor e o cérebro do Cortez.

Os relvados abertos também ajudaram a identificar a principal característica das equipes, que no Grêmio era uma dificuldade angustiante de dominar a bola e no Botafogo era uma capacidade nuclear de errar passes (embora o Grêmio também tenha errado passes ridículos e o Botafogo também tenha errado domínios ridículos). O jogador com mais espaço de todos, entretanto, era o volante Arthur, que olhava para Jaílson e Leo Moura e Fernandinho e Ramiro e Cortez e Barrios e só via uma vastidão de terra devastada e estéril. Com o 0 a 0 no jogo de ida e a obrigação de marcar um gol no jogo de volta, a estratégia mais adequada para a partida na Arena parece ser cerveja.

Os maiores heróis do mundo

Em julho de 1941, três prisioneiros conseguiram escapar do campo de concentração de Auschwitz. Como represália pela fuga, o comandante do campo escolheu aleatoriamente dez prisioneiros para trancar em uma cela subterrânea sem luz, água ou comida, onde permaneceriam até morrer. Ao tomar conhecimento de que um deles, Franciszek Gajowniczek, tinha mulher e filhos, o padre polonês Maximiliano Maria Kolbe voluntariou-se para assumir o lugar do prisioneiro, pois já era idoso e não tinha mais ninguém dependendo dele no mundo. O padre morreu após mais de 20 dias. Gajowniczek foi salvo. E estava presente no Vaticano quando, 41 anos depois, o papa João Paulo II canonizou Kolbe.

Também em julho de 1941, no distrito de Minsk, durante a invasão alemã à URSS, o comandante do campo de concentração local fez 45 judeus cavarem suas próprias covas. Quando o trabalho terminou, as vítimas  foram amarradas e atiradas nelas, e os homens da SS ordenaram que 30 russos cobrissem as covas com terra para que os judeus fossem enterrados vivos. Os russos se recusaram. Armados com metralhadoras, os alemães atiraram e mataram as 75 pessoas.

Acho encorajador que, diante de uma crueldade quase inconcebível e de consequências terríveis, ainda exista algum ato de humanidade capaz de ser maior do que todo o terror perpetrado. Só queria tornar essas histórias menos anônimas.

Briga de riquinhos: Floyd Mayweather vs Conor McGregor

Não vi a luta entre Floyd Mayweather Jr. e Conor McGregor, mas aposto que os acontecimentos se desenrolaram exatamente desta forma (e se não foi assim, deveria ter sido).

Apresentação

Floyd Mayweather Jr. chega vestindo o seu tradicional roupão feito com notas de cem dólares. Conor McGregor pergunta o que são essas coisas acolchoadas e porque precisa usar elas nas mãos enquanto Floyd sobe no ringue com o elevador que mandou instalar especialmente para a ocasião.

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Por que a Terra não para?

A Terra gira ao redor de si mesma a inacreditáveis quatrocentos e sessenta e cinco metros por segundo. Isso dá mais de mil e seiscentos quilômetros por hora, uma velocidade tão absurda que é difícil visualizar qualquer coisa se movendo a mil e seiscentos quilômetros por hora, que dirá uma gigantesca elipse feita de água e rocha.

Se alguém colocasse uma barra de ferro no aro da bicicleta da Terra enquanto ela pedala a todos esses quilômetros horários, seria o fim. Parar a rotação do planeta de forma súbita arremessaria todo mundo na direção leste a velocidades não-sobrevivíveis. Não que faça muita diferença, já que o mundo se tornaria um combo de incêndios, tsunamis e furacões, pelo menos enquanto o sol não pulverizasse toda a superfície – com o núcleo do planeta parado, o campo magnético que nos protege da estrela mais próxima iria pro espaço.

A intensidade desse cenário devastador parece adequada se pensarmos na situação oposta, naqueles momentos onde algo acontece e a gente só quer que tudo permaneça estático por pelo menos alguns segundos enquanto tentamos manter os pés no chão e o mundo vem e nos atropela a mil e seiscentos quilômetros por hora.

E de repente a gente descobre que se passaram dez anos e que nós não paramos pelo mesmo motivo que a Terra nunca vai parar: não haveria como sobreviver.

Fair Play de falha de goleiros

A flacidez com que Marcelo Grohe foi na bola é um lembrete de que o planejamento é um tigre de papel, que tudo na vida pode ser colocado abaixo por um par de mãos emulando um purê de batatas. Ainda mais com o Grêmio achando que o gramado é apenas uma sala de espera para a classificação e pegando uma Caras de 3 anos atrás para ler. Felizmente o goleiro do Godoy Cruz, cujo nome é não importa porque o Grêmio se classificou, também foi contaminado pela gripe aviária e soltou a bola nos pés de (um gloriosamente sóbrio, objetivo e eficiente) Barrios. A equipe então tomou consciência de si mesma, lembrou do que pode fazer, e não só do que se espera que ela faça, e expeliu o Godoy Cruz da competição com um Pedro Rocha meteórico e um Geromel alucinado galopando pelo campo em direção ao olimpo. Maldição das oitavas de final expurgada, é hora de seguir em frente com um otimismo guardado no bolso: se por acaso o Grêmio bater na trave, é possível que Pedro Rocha esteja por perto para completar pro gol.

Crítica | Dunkirk tira coelhos grandiosos da cartola

Christopher Nolan é um rebelde. Na época de ouro do streaming, quando ficar em casa vendo séries no Netflix é não só aceitável como cool, o diretor aparece e despeja uma proza técnica tão colossal que jamais deveria ser lançada fora dos cinemas, pois qualquer tela caseira que tenha a ousadia de abrigar o filme provavelmente vai acabar explodindo.

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Crítica | Em Ritmo de Fuga é um filme de encher os olhos (e os ouvidos).

O cinema é uma mídia visual. É sempre melhor mostrar as coisas do que informar as coisas. Por exemplo: se o personagem X falar que o protagonista é o motorista mais insano que já apareceu no universo, o espectador vai receber a informação sem que ela tenha um grande impacto; agora, se trocar o diálogo pela sequência inicial de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver), o protagonista pode aparecer depois CAVALGANDO UM CARRO e o espectador vai aceitar a situação perfeitamente.

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Uma conversa com o histórico de navegação

– Olá.
– Quem é?
– É o seu histórico de navegação.
– Ah. Que merda.
– A propósito, “merda” foi o termo que você mais buscou ontem.
– Sim e você pode colocar isso na conta de um croquete que comi na rodoviária.
– Precisamos conversar.
– Não precisamos não.
– O que exatamente você estava pensando quand–
– Psst. Aqui não. Deixa eu ir até o banheiro da firma antes.
– Por falar nisso, você está pensando em remodelar o banheiro de casa? Andou vendo muitos sites com projetos novos.
– Novamente o croquete da rodoviária.
– Entendi. Bem, eu queria falar sobr–
– Eu sei sobre o que você quer falar.
– Por que você fez aquilo?
– Fiquei entediado com a pornografia e quis me distrair.
– Não ficou não. Você acessou seiosmeteoricos.com.br treze vezes depois.
– Hã, foi pra uma pesquisa da faculdade.
– Não foi não. Você não acessa o site da faculdade desde o Windows Vista.
– Mas que saco.
– Então, eu só quero saber por que você f–
– Espera aí. Como você sabe disso? Não era pra você saber.
– Eu sou seu histórico, cara. Eu sei até quantas vezes você viu vídeos de pagode dos anos 90 no YouTube.
– Sim, mas isso era pra ser segredo até pra você. Não era?
– Você abriu mão de todos os segredos quando viu aquela janelinha cheia de texto legal e clicou em “eu aceito”.
– Que merda. Eu achava que o lance da Deep Web não aparecia no histórico.
– Deep Web?
– Sim.
– Rapaz o que você estava fazendo na Deep Web?!
– Mas eu achei que você soubesse!
– A Deep Web sequer é acessada pelo navegador, seu croquete de rodoviária. Você sabe disso! Você já buscou “como acessar a Deep Web”!
– Mas–mas se não é da minha ida à Deep Web, então do que você está falando?
– Do Ashley Madison!
– O quê?
– Ashley Madison. O maior site de traição do mundo.
– Tá de brincadeira, né?
– Já falei que não há segredos entre nós. Ou você acha que não percebi os sites de entrega de flores, os acessos ao perfil da Renata no Facebook, as compras de dois ingressos para o cinema e para o teatro, viagens para dois, metade da fatura do cartão de crédito gasta no motel?
– Eu não estou dizendo que o lance com a Renata não é sério. Estou dizendo que o lance do Ashley Madison é esquizofrenia da sua parte.
– Você acessou o Ashley Madison ontem. Claramente está pensando em trair a Renata. Seja homem e termine antes!
– Eu não acessei esse troço.
– Acessou sim.
– Mas que bosta. Já falei que não.
– Não adianta mentir. Tá registrado aqui que você acessou o Ashley Madison ontem mesmo às seis e vinte e sete da noite.
– O quê? Ontem pelas seis e meia eu ainda estava em reunião no trabalho. Cheguei em casa pós-hora do rush.
– Ué. Tem certeza? Que estranho. Por aqui que diz que o site foi acessado do seu notebook nesse horário.
– Sabe de uma coisa?
– O quê?
– A Renata estava aqui ontem de tarde.
– …
– …
seiosmeteoricos.com.br?
– Por favor.

Diálogos em Chamas #1 – A Rede Social

A ideia dessa série, que provavelmente vai se esfacelar com o tempo igual a outras (p.ex.: Crônicas da Wikipédia), é pegar alguns diálogos certeiros de filmes e espremer eles até sair uma quantidade boa de suco de significados.

Começando com A Rede Social porque, bem, é A Rede Social, e porque aquele diálogo inicial onde Mark e Erica conversam sobre os clubes de Harvard revela muito do que virá:

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