Melhor que Nada - Ou pior que tudo

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O dia seguinte

Acordei com a garganta asfaltada. Não sei se é o termo científico correto, mas é aquela sensação onde o simples ato de engolir saliva é semelhante a raspar o joelho no asfalto. Levantei da cama e pendi ligeiramente e temporariamente para a esquerda, a lombar anunciando em alto e bom som que tenho trinta e três anos. Vesti uma bermuda e uma camiseta. Até hoje não sei exatamente quais. Uma epifania nas funções cognitivas me fez perceber que estava quase na hora do expediente começar, e eu sequer havia vestido uma bermuda e uma camiseta para ir trabalhar (ou não?).

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O bar das lamentações

Sei que já existe o muro das lamentações, mas urge tirarmos do papel e atirarmos em algum local boêmio o bar das lamentações. Um recinto que funcionasse como abrigo para pessoas em circunstâncias nada favoráveis derramarem suas lamúrias em cima dos amigos. É algo que já fazemos – quando do final de um namoro, por exemplo, ou o final do Oasis, é comum a pessoa seguir até o boteco de preferência com a sua entourage para falar a respeito. O problema é que bares são ambientes intrinsicamente alegres, provavelmente porque o negócio deles é avacalhar liquidamente a comunicação entre neurônios através do álcool. Dizem que a miséria gosta de companhia, mas não gosta, e a felicidade latente dos pubs e botecos e etc impede que o desabafo desça aos níveis de profundidade necessários.

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Por que Bob Dylan não merece o Nobel

Bob Dylan recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Foi um daqueles acontecimentos que as pessoas só batem o olho e o sistema nervoso já libera alguma substância desconhecida que obriga o indivíduo a emitir sua opinião a respeito. Talvez pelo fato de Dylan não ser um escritor propriamente dito, do tipo que publica livros e fica fechado em um quarto só com uma máquina de escrever e um copo de uísque e alguns cigarros, e sim um músico. Daí uns dizem que músicos têm que se contentar com o Grammy (coitados), outros que as letras escritas por Dylan já humilham muita gente literária por aí. Mas há um motivo inegável para o milongueiro gringo não receber o prêmio.

Como sempre acontece na vida e nunca nas redes sociais, é necessário um contexto histórico. A premiação foi um legado deixado por Alfred Nobel, inventor sueco do século dezenove e provável piromaníaco enrustido. Tal qual Michael Bay, Nobel adorava explosões, e essa paixão, somada aos conhecimentos de química, levaram o sujeito a inventar a dinamite, uma versão com menos emoção da nitroglicerina. Finalmente coisas poderiam ser explodidas sem o risco do explodidor acabar se explodindo junto. Foi o início de uma revolução para a engenharia civil.

E para o quebra pau oficial entre nações, claro. Ao ver um explosivo que poderia ser manuseado com estabilidade, o ser humano não pensou duas vezes antes de decidir que devia ser relamente incrível atirar tal artefato em outros seres humanos. Isso inclusive levou um jornal a alcunhar Nobel de “o mercador da morte”. Pacifista que era nos últimos anos, o inventor não deve ter ficado feliz – e, para contrabalançar as explosões que sua invenção disseminou mundo afora, deixou no seu testamento a criação de uma associação que premiasse os grandes passos para a frente dados pela humanidade em diversas áreas.

Ou seja, a principal característica do Prêmio Nobel é: arrependimento.

Ora, o Bob Dylan não se arrepende. Lembram do que aconteceu quando alguém gritou “judas” durante um show em que ele havia traído o movimento ao tocar com uma guitarra elétrica e uma banda? Dylan simplesmente virou para os outros músicos e disse “toquem alto pra caralho”. Não, ele não combina com toda a esfera de arrependimento que circunda o prêmio. Tal posição cabe a outro tipo de pessoa. Sabem aquele conhecido de vocês que acordou em um domingo desses, cabeça latejando, estômago revirado, vontade de jogar desodorante no esôfago, garrafas de cerveja espalhadas pelo quarto, um mártir da boemia, esse conhecido que, movendo-se quase em câmera lenta, pegou o telefone para ver as horas e descobriu só então que havia mandado uma mensagem safada para a ex-namorada na noite anterior?

Esse sim merecia o Nobel de literatura.

Black Mirror e o hype maior do que as pernas

Duas mudanças bem perceptíveis aconteceram nesta terceira temporada de Black Mirror, que estreou um dia desses aí após a Netflix pedir para a série morar junto com ela. A primeira já fica clara logo de início: em vez dos costumeiros três episódios, temos uma fornada com seis incursões pela terra mágica do niilismo tecnológico. A outra é menos empolgante: em algum momento dessa transição, Black Mirror perdeu a bagagem onde carregava as provocações e a falta de pudor de levar a situação até um extremo emocional perturbador. E não achou.

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Eu e o inglês do século XIX

Terminei de ler David Copperfield. É um container de 1200 páginas bem arrumadas em uma edição linda (que, como todas as edições lindas, é fácil de expor na prateleira e difícil de manusear durante a leitura), envolvente até o último ponto final e cativante como aquela desconhecida sobra de pizza que é redescoberta no forno ao fim de uma madrugada etílica.

Durante a leitura, mais de uma vez precisei recorrer aos canais lacrimais. Mais do que o talento que Charles Dickens possuía de enfileirar caracteres e situação, foi a cumplicidade do momento que me atingiu. Por muito tempo ainda vou associar a ternura de Pegotty segurando a mão do pequeno Davy com a da minha mãe trazendo chocolate para casa aos fins de semana porque ela leu em algum lugar, ou viu em algum lugar, ou alguém em algum lugar falou para ela, que chocolate ajuda a lidar com o luto.

Sou um brasileiro do século XXI que não possui nada em comum com um inglês do século XIX, duas vidas separadas por oceanos de tempo e espaço (e, infelizmente para mim, talento). O fato de Dickens ter criado um momento com o qual consegui me identificar de forma tão intensa, como se estivesse ouvindo o relato de um amigo e assimilando à minha própria experiência e enfrentando ela com mais alguém ao lado, é tudo que qualquer literatura ou arte precisa para provar sua importância. Saber que tem outra pessoa lutando contra a mesma maré, ainda que seja uma personagem fictícia, proporciona aquele companheirismo reconfortante que ajuda a gente a se sentir menos sozinho na empreitada e torna o mundo um pouquinho menos assustador.

Sinto saudades dos blogs

Eu realmente sinto. Sim, os blogs ainda existem hoje em dia, mas eles existem da mesma forma que uma colher existe, apenas um meio para um fim – atrair mais acessos, gerar negócios e leads, solidificar autoridade em alguma área e assim por diante. O universo corporativo plantou sua bandeira e construiu uma muralha da China ao redor dos blogs, praticamente condenando ao exílio os diários virtuais, aqueles relatos afiados onde as pessoas narravam os acontecimentos do dia a dia com um charme cativante (como acontecia no saudoso Insanus). Nada sobrevive a não ser O Conteúdo. Precisa ser relevante para um público alvo, mesmo em plataformas de publicação como o Medium.

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Campanha de vacinação para colorados e gremistas | 2016

O grande evento futebolístico ano para colorados e gremistas parece ser o rebaixamento do Inter. Isso diz bastante sobre o envenenamento por mercúrio pessimista que a torcida do Grêmio vem sofrendo, já meio que totalmente alheia à Copa do Brasil, mesmo que o clube esteja em vantagem nas quartas de final e a apenas cinco jogos de conquistar algo inédito em sua história, um título (ao menos essa é a sensação). Entretanto, o mais curioso é o posicionamento dos dois lados. Leia Mais

Edição Frenética #3

Descompensada

filme descompensada

Direção: Judd Apatow

Como a maioria dos filmes do Judd Apatow, Descompensada foi mergulhada no potinho de agradável cinismo adulto antes de ir ao forno. Segue a premissa meio padrão de comédias românticas, mas Apatow consegue levar as coisas um pouco mais longe, seja ao se aproximar mais de sua intensa protagonista, seja ao mostrar ela vomitando em uma sala de cirurgia. Se estivesse no Netflix, certamente teria uma tag do tipo “Diversões melancólicas e otimistas” – embora “LeBron James em chamas” ou “boomshakalaka” fossem mais pertinentes. nota 4 Leia Mais

Notas de um hipocondríaco #1

Dia desses tive uma situação de pressão alta. Era segunda-feira, uma dessas segundas-feiras tão segunda-feira que no domingo já dá para sentir o cheiro de cocô. Dor de cabeça, uma dorzinha na nuca e a constante sensação de estar com gás hélio na cabeça me levaram a ir até a academia na hora do almoço para medir a pressão. 14×8. Nada alarmante. O dia passou, o trabalho seguiu e, ao final do expediente, voltei lá para uma nova aferição: 15×9. Subiu, mas, ainda assim, nada de alarmante.

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A meditação gelada

Desconheço técnica de meditação que seja mais relaxante, divertida e eficiente do que tirar pedrinhas de gelo da forma. Sim, encher tal recipiente nunca é fácil e poderia ser parte de uma gincana ou de uma atividade de dinâmica de grupo, mas é um preço pequeno a se pagar. Quando você tira aquele conjunto de quadrados sorridentes do freezer, os gelos organizados, aquela harmonia geométrica, e força as mãos em direções contrárias para liberar as pedras, ouve-se um barulho que é quase uma textura, como se você estivesse delicadamente destacando pedaços de cristais. É aí que começa.

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