Melhor que Nada - Ou pior que tudo

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A jornada do herói no retorno do litoral

1. Mundo Comum

Assentado nas praias do litoral, o herói desfruta de uma existência cotidiana regada a churrascos, cerveja de latão direto do isopor e, ao contrário do que ocorre na cidade, ventos.

2. O Chamado da Aventura

Essa invenção humana chamada “tempo” convoca o herói a voltar à selva de pedra para ajudar a girar a roda do capitalismo.

3. Recusa do Chamado

O herói adia ao máximo possível o retorno por medo de perder o último churrasco do fim de semana (ou do feriado).

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O mais importante do Natal são os presentes.

Parece mister subjugar todas essas décadas de filmes natalinos e especiais do Roberto Carlos, de discursos edificantes e imagens com erros gramaticais no WhatsApp, e reconhecer que, no fim das contas, o Natal é mesmo sobre os presentes. A ceia chega perto, mas ainda há um quê autoral nos pratos que polvilham a mesa durante o feriado mais espiritual e comercial do ano. Os presentes não.

Cada empreitada natalina exige sangue, suor, lágrimas e reais de seus praticantes. Na melhor das hipóteses, é um processo repleto de gatilhos de angústia: será que a camiseta é M ou G? Esse livro parece o tipo que fulano ou fulana gostaria? Qual dessas cervejas é realmente boa e qual as pessoas só dizem que é boa por ser diferente? Minha nossa, será que eu comprei o tamanho certo de sabre de luz?

Na pior, é uma jornada colérica por exércitos demoníacos se arrastando em círculos do inferno em uma corrida contra o tempo ao redor de praças de alimentação. Não há ato maior de amor incondicional do que comprar um presente em cima da hora: é o abandono total das faculdades de autopreservação e um mergulho seminal em direção ao perigo. O pináculo de colocar os outros à frente de si mesmo.

Se você realmente quer saber o significado do Natal, saia imediatamente de casa e vá em direção ao shopping armado apenas com uma vaga ideia do que seria um bom presente pra uma pessoa que você gosta. O resto é um aprendizado que nenhum especial natalino consegue superar.

Prorrogação forma caráter (e úlcera)

Foi nesse limbo, nesse buraco interdimensional entre o fim dos 90 minutos de partida e a continuidade da vida, nesse intervalo de tempo que não é o jogo mas é o jogo, nesse universo alternativo de Donnie Darko, nesses momentos que existem apenas em uma dimensão própria, nessa dilatação do espaço-tempo futebolístico, nesses 10 anos de envelhecimento, nesse sofrimento tonitruante chamado prorrogação que Everton cebolinha entrou na área, gingou e decretou que o Dia de Los Muertos passaria a ser em novembro, pontuando sua decisão com um fogo de artifício disparado no ângulo. O Grêmio havia passado boa parte da hora e meia anterior de ressaca, seguindo em frente de forma meio trôpega, eventualmente precisando de uma intervenção cirúrgica por parte de Bruno Cortez, esse grande cirurgião sem diploma, para continuar vivo. E a prorrogação expande o horror, espalhando angústia como se fosse fake news no Facebook. Mas era um daqueles dias de consagração. E foi assim que Everton, um reserva iluminado, e provavelmente iluminado pelo reflexo do sol na careca do espartano Jael, foi assim que Everton aniquilou o totalitarismo do empate e pavimentou a estrada para o descontrole absoluto. Entre mortos e feridos, entre falhas e glórias, entre desafios e conquistas, entre úlceras e marcapassos, a trajetória gremista também foi prorrogada.

Vale a Pena Fazer de Novo #2 | A Liga Extraordinária

Recapitulando: a ideia dessa série é resgatar das trevas boas propostas cinematográficas que foram aniquiladas por estúdios/cineastas dementes. O pontapé inicial foi sobre 300.

A Liga Extraordinária

(The League of Extraordinary Gentleman, Stephen Norrington, 2003)

Qual é a moral?
É a Liga da Justiça intelectual. Para impedir a ameaça de um misterioso inimigo chamado de O Fantasma, o aventureiro Allan Quatermain (As Minas do Rei Salomão) reúne um grupo de personagens de clássicos britânicos, incluindo Mina Harker (Drácula, de Bram Stoker), Capitão Nemo (20.000 Léguas Submarinas), Dr. Jekyll/Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), Rodney Skinner (O Homem Invisível – com um nome diferente por problemas de direitos autorais), Dorian Grey (O Retrato de Dorian Grey) e Tom Sawyer (As Aventuras de Tom Sawyer. Que não é um clássico britânico, mas está lá porque o patriotismo americano não tem limites (do ridículo)).

O que deu errado?
De forma bem concisa, podemos dizer que: tudo. The Legue of Extraordinary Gentleman é um tratado impecável sobre cair de cara no chão, fracassando miseravelmente desde os CGIs caricaturais até a maquiagem vilipendiosa, desde a trama inconsistente e metralhada de furos até os diálogos de biscoito da sorte, desde as cenas de ação narcolépticas até desenlaces catastróficos. É tanta coisa reunida de forma tão errada que devem ter igrejas por aí encarando o filme como um sinal da chegada do próximo anticristo.

Mas por que outra chance?
Porque é uma ideia brilhante, daquelas que gritam “clear!” e colocam o desfibrilador no peito da criatividade para reanimar ela. As graphic novels que o filme adapta (risos) são simplesmente geniais, tornando as personagens tridimensionais ao manter todo mundo de acordo com as personalidades, crenças e motivações dos livros de onde saíram – sem esquecer de construir uma trama repleta de reviravoltas, onde o mistério resulta em desfechos intensos e surpreendentes. Além disso, humor britânico.

Diálogos em Chamas #2 – Simplesmente Amor

Já que o post inaugural da série falava sobre as relações destrutivas de A Rede Social, nada melhor do que equilibrar com as relações destrutivas-às-vezes-mas-amorosas-em-geral do filme que todo mundo vê (ou deveria ver) todo Natal, certo?

Certo. A cena aqui é o momento em que Jamie volta pra casa com o objetivo de ver se a namorada melhorou e encontra seu irmão na sala, sem suspeitar que ele e a moça estão prestes a cometer o ato físico do amor. O lance segue assim (tradução minha, vocês podem assistir aqui se quiserem (entre 0:47 e 1:14)):

– Olá. O que diabos você está fazendo aqui?
– Eu só–só dei uma passada pra pegar uns CDs velhos emprestados.
– A mulher da casa te deixou entrar, certo?
– Sim.
– Ótimo. Garota solícita. Esse é bom (mostrando um CD).
– Sim.
– Eu só pensei em dar uma passada aqui antes da recepção pra ver se ela melhorou. Escuta, eu estava pensando. Acho que devíamos levar a mamãe pra jantar no aniversário dela na sexta. O que você acha? Eu sinto que fomos filhos meio ausentes esse ano.
– Ok. Pode ser. Parece meio chato, mas tudo bem.
– (voz feminina fora do quadro) Se apresse garotão! Estou pelada e quero você pelo menos duas vezes antes do Jamie chegar em casa!

Ou seja, em menos de um minuto o filme consegue:

  1. Informar de um jeito orgânico que é o irmão de Jamie quem está presente ali (qualquer roteirista preguiçoso colocaria algo do tipo “ei o que meu irmão mais novo está fazendo aqui?“).
  2. Mostrar a naturalidade e a dinâmica entre os irmãos, sugerindo que eles são próximos (Jamie nem questiona a presença do outro e até sugere um CD, como se indicações fossem algo corriqueiro entre eles), o que torna a traição ainda mais impactante.
  3. Caracterizar Jamie como uma pessoa sensível e empática, pois parte dele a preocupação com a mãe (ao passo que o irmão parece achar um fardo). É importante porque mais tarde essas características do personagem, já estabelecidas pelo filme, vão reforçar a conexão com Aurelia.
  4. Informar o espectador de que, óbvio, Jamie descobriu que sua namorada estava traindo ele com o irmão.
  5. Entreter e divertir.

É por isso que bons roteiristas fazem a diferença. E não esqueça: estamos em dezembro, até o dia 31 é obrigatório ver Simplesmente Amor pelo menos uma vez.

Fernandinho Abaixo de Zero

O relógio marcava 27 décadas do primeiro tempo quando Fernandinho, emulando Derice e Yul e Junior*, correu os 100m rasos em menos de 10 segundos e demoliu as redes adversárias. Quase 15 minutos depois, Luan entrou na área provocando choque anafilático na defesa do Lanús e completou encobrindo o goleiro e o talento do Messi. A partir daí, tudo virou demência alcoólica e descontrole, qualquer armadilha do acaso sendo desarmada pela lucidez assustadora do Arthur. Na minha cabeça cheia de sinapses embriagadas, o apito final do juiz e o abraço a desconhecidos na Goethe ocorreram praticamente na mesma hora, o longo rio do tempo se tornando basicamente uma piscina de 50 litros onde tudo era condensado e resumido e acumulado e concentrado e embolado e martelado ao redor de uma única palavrinha: tri.

*quem viu o filme lembra que Sanka era só o piloto, não corria, por isso está ausente da lista.

O gol impossível

Na hora foi até meio difícil de entender direito. O Edílson levantou na área uma bola cuja trajetória era digna de problema na prova de física, certo?, e daí o Jael pegou esse carvão e transformou em um diamante para o Cícero, que por sua vez meio que bateu forte pro chão pra tirar do goleiro, mas a bola acabou ricocheteando nele, o que não impediu ela de seguir em direção às redes porque a física mecânica é linda. Fica até meio difícil de acreditar. Não é possível que aquela bola despretensiosa do Edílson, quase lá no meio de campo, acabe resultando em gol. Não é possível que Jael, que divide comigo o mesmo número de gols feitos pelo time profissional do Grêmio, tenha aniquilado a defesa Lanústica com uma assistência de cabeça magistral. Não é possível que Cícero, cuja participação como centroavante no jogo anterior havia sido a antítese de epilepsia, tenha incorporado o arquétipo definitivo do centroavante. Não é possível que tanta coisa tenha funcionado na hora certa, principalmente quando nada mais parecia funcionar. Não é possível que uma bola dessas tenha salvado o jogo. Não é possível que o Grêmio, até ontem caminhando em vão por ruas de tráfico à procura de uma dose acachapante de título, esteja correndo em direção ao tricampeonato da Libertadores. Mas foi. E talvez seja.

Crítica | Liga da Justiça quer muito ser grandioso (mas não é)

Em certo momento de Liga da Justiça, Bruce Wayne comenta que o mundo precisa do Superman porque ele é o mais humano dos dois, já que se instalou na Terra, arranjou um emprego, tinha uma namorada, discutia assuntos irrelevantes na internet etc. E é sintomático que, mesmo com dois filmes dedicados ao azulão, um personagem precise explicar verbalmente porque o rapaz é mais humano: com exceção da Mulher-Maravilha, todos os personagens da DC são desprovidos de personalidade, como se existissem apenas enquanto um recipiente para superpoderes. O Superman desse universo não é o Superman, ele é um borrão voando no céu.

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Vale a Pena Fazer de Novo #1: 300

A ideia dessa série é a) finalmente bater o recorde de “série com mais de uma postagem no blog” e b) trazer produções que, ao contrário da maioria dos remakes, realmente mereciam uma nova chance na telona.

300

(idem, Zack Snyder, 2006)

Qual é a moral?
Xerxes, rei da Pérsia e uma versão medieval do garoto dono da bola que exige que todos passem para ele ou não tem jogo, chega até a Grécia e gentilmente pede a submissão dos gregos. Lêonidas, rei de Esparta e o rei da birra, diz que não e leva sua guarda de 300 soldados até o desfiladeiro das Termópilas, onde a superioridade numérica do contingente persa não vale nada porque os caminhos são estreitos e as lutas são em câmera lenta.


O que deu errado?
300 é menos uma história e mais um conjunto de cenas que foram feitas para aparecer no trailer. É um desfile de soluções fáceis, eventos óbvios, diálogos tão explícitos que talvez o MLB tente censurá-los em algum momento, atuações sofríveis, coreografias monótonas, trilha completamente deslocada, masturbação de câmera lenta, mise-en-scène derrotada, decupagem patética. Até a narração em off consegue chafurdar na lama do fracasso (não só o texto, mas também a produção em si da voz), fazendo com que o filme atinja novos níveis de demência. Salva-se de leve a fotografia, e olha que ela não conta porque foi simplesmente escaneada da graphic novel que o filme adapta (risos).


Mas por que outra chance?
Porque 300 de Esparta, a graphic novel que deu origem ao filme, é uma obra brilhante. Envolvente. Cinematográfica, apesar de tudo que a produção cinematográfica fez para mostrar o contrário. Qualquer diretor minimamente alfabetizado em histórias tira dali um daqueles filmes épicos que fazem o espectador sair do cinema querendo comprar uma espada. Repleta de momentos inesquecíveis, personagens interessantes e uma cuidadosa construção de clímax (em certos momentos, dá para sentir o vento soprando nos desfiladeiros), a graphic novel merece uma versão cinematográfica à altura. É um crime deixar tal obra à mercê da paródia anêmica que a Warner Bros. nos empurrou goela abaixo.

Eu não ia beber hoje

Em uma daquelas complexas narrativas não-lineares, o Grêmio entrou em campo aos 45 do segundo tempo e com o Barcelona a meros ÁCAROS da classificação, um buraco de minhoca futebolístico que obrigou a equipe gaúcha a fazer concorrência à SpaceX em cada jogada e apostar na estratégia de parecer assustada. Somente após cerca de 65 minutos de 45 do segundo tempo, um gol à la loca do Barcelona e uma latinha de cerveja desbravando o esôfago é que os 10 jogadores tricolores e o Ramiro se deram conta do que estava acontecendo. A partir daí, e apesar da parcialidade do árbitro Roberto Tobar Caicedo, o time sofreu um daqueles ataques súbitos de sobriedade (quem já ficou bêbado conhece) e levou a partida numa boa, inclusive com Jael quase empatando o jogo, evento que certamente derrubaria o estádio e as leis da probabilidade. Recuos acidentais do Edílson à parte, quando o apito final soou o Grêmio estava na sua quinta final de libertadores e eu senti que não poderia fazer outra coisa: abri uma latinha de cerveja.

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