Melhor que Nada - Ou pior que tudo

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Omelete às 9 da manhã

Fico pensando se Netflix, Amazon, Hulu e outros serviços de streaming não estão matando as discussões sobre séries. Com todos os episódios disponíveis a qualquer hora, cada um segue um ritmo diferente e se manifestar sobre uma temporada específica de um série específica parece muito um lance “velho grita com nuvem” – falar sobre um episódio específico, então, é gritar no espaço. Tirando fenômenos como Game of Thrones e A Casa de Papel, não faço ideia do que as outras pessoas estão assistindo e vice-versa.

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Vale a Pena Fazer de Novo #3 | O Pagamento

Recapitulando: a ideia dessa série é resgatar das trevas boas propostas cinematográficas que foram aniquiladas por estúdios/cineastas dementes. O pontapé inicial foi sobre 300 e a saga continuou com o inexplicável A Liga Extraordinária.

O Pagamento

(Paychek, John Woo, 2003)

Qual é a moral?
Um engenheiro aceita um contrato de 2 anos para trabalhar em um projeto onde, ao final, ele terá sua memória relacionada a esses 2 anos apagada para não revelar dados importantes (imaginem a maior ressaca de Tequila do mundo). Entretanto, ao tentar recolher o pagamento, ele descobre não só que renunciou ao dinheiro, mas também que os itens pessoais que havia guardado foram alterados. Como desgraça nunca vem sozinha, o FBI ainda resolve perseguir o fulano por traição – provavelmente porque eles têm um orçamento anual dedicado à “traição” e precisam gastar a verba -, obrigando o tal engenheiro a resolver o mistério enquanto foge em câmera lenta dos agentes em seu encalço.

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O paradoxo Yellow Ledbetter

De acordo com essa fonte inquestionável chamada internet, Yellow Ledbetter é a música mais tocada pelo Pearl Jam na hora de encerrar shows (quase o dobro da segunda colocada, Rockin’ in the Free World). A canção é lado B do single de Jeremy, essa sim um arrasa-quarteirão que deixou a grunjarada em polvorosa lá no início dos anos 90, e a ausência de Yellow Ledbetter no Ten é uma daquelas demências inexplicáveis, principalmente quanto tínhamos a pavorosa Why Go e a desnecessária Garden.

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Do que os atletas de inverno estão fugindo?

Não sei se vocês já perceberam, mas os esportes das Olimpíadas de Inverno são menos um lance de competição e mais um lance de escapar: a grande maioria das atividades envolve descer por alguma formação geológica/humana cheia de neve o mais rápido possível, como se fosse o 007 fugindo de algum esconderijo nos alpes (Roger Moore se a fuga for de esqui; Pierce Brosnan se for de patinação artística com paraquedas).

Aliás, com a chegada das Olimpíadas de Inverno de 2018 em PyeongChang¹ é impossível não se atentar a algumas características interessantes desses esportes tão distantes da nossa realidade (geograficamente e climaticamente).

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A Bigorna

 

Durante minha infância, nenhuma forma de ataque era tão implacável quanto a bigorna. Revólveres assustavam, claro, e a perspectiva de um contato físico entre uma bola em movimento e as partes sensíveis do corpo provocava pesadelos, mas ambos fazem parte do mundo, se encaixam em situações do cotidiano. Já a aleatoriedade das bigornas que despencam sobre personagens de desenhos animados é angustiante. Sim, provoca humor, só que a ausência delas em qualquer situação rotineira me fazia pensar que as bigornas tinham apenas um objetivo: provocar dor.

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Bem-vindos ao Costas Molhadas Anônimos

Ontem eu tomei vergonha na cara e participei do CMA. Sei que o primeiro passo para resolver um problema é admitir que ele existe, mas sou o primeiro a admitir que admitir é um problema. No momento em que você conta a verdade a si próprio, está sendo ao mesmo tempo o causador e o receptor da dor, exatamente como acontece quando decide trocar o plano do telefone celular, e por isso meu relacionamento com o CMA até hoje foi igual ao meu relacionamento com dinheiro: à distância.

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A jornada do herói no retorno do litoral

1. Mundo Comum

Assentado nas praias do litoral, o herói desfruta de uma existência cotidiana regada a churrascos, cerveja de latão direto do isopor e, ao contrário do que ocorre na cidade, ventos.

2. O Chamado da Aventura

Essa invenção humana chamada “tempo” convoca o herói a voltar à selva de pedra para ajudar a girar a roda do capitalismo.

3. Recusa do Chamado

O herói adia ao máximo possível o retorno por medo de perder o último churrasco do fim de semana (ou do feriado).

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O mais importante do Natal são os presentes.

Parece mister subjugar todas essas décadas de filmes natalinos e especiais do Roberto Carlos, de discursos edificantes e imagens com erros gramaticais no WhatsApp, e reconhecer que, no fim das contas, o Natal é mesmo sobre os presentes. A ceia chega perto, mas ainda há um quê autoral nos pratos que polvilham a mesa durante o feriado mais espiritual e comercial do ano. Os presentes não.

Cada empreitada natalina exige sangue, suor, lágrimas e reais de seus praticantes. Na melhor das hipóteses, é um processo repleto de gatilhos de angústia: será que a camiseta é M ou G? Esse livro parece o tipo que fulano ou fulana gostaria? Qual dessas cervejas é realmente boa e qual as pessoas só dizem que é boa por ser diferente? Minha nossa, será que eu comprei o tamanho certo de sabre de luz?

Na pior, é uma jornada colérica por exércitos demoníacos se arrastando em círculos do inferno em uma corrida contra o tempo ao redor de praças de alimentação. Não há ato maior de amor incondicional do que comprar um presente em cima da hora: é o abandono total das faculdades de autopreservação e um mergulho seminal em direção ao perigo. O pináculo de colocar os outros à frente de si mesmo.

Se você realmente quer saber o significado do Natal, saia imediatamente de casa e vá em direção ao shopping armado apenas com uma vaga ideia do que seria um bom presente pra uma pessoa que você gosta. O resto é um aprendizado que nenhum especial natalino consegue superar.

Prorrogação forma caráter (e úlcera)

Foi nesse limbo, nesse buraco interdimensional entre o fim dos 90 minutos de partida e a continuidade da vida, nesse intervalo de tempo que não é o jogo mas é o jogo, nesse universo alternativo de Donnie Darko, nesses momentos que existem apenas em uma dimensão própria, nessa dilatação do espaço-tempo futebolístico, nesses 10 anos de envelhecimento, nesse sofrimento tonitruante chamado prorrogação que Everton cebolinha entrou na área, gingou e decretou que o Dia de Los Muertos passaria a ser em novembro, pontuando sua decisão com um fogo de artifício disparado no ângulo. O Grêmio havia passado boa parte da hora e meia anterior de ressaca, seguindo em frente de forma meio trôpega, eventualmente precisando de uma intervenção cirúrgica por parte de Bruno Cortez, esse grande cirurgião sem diploma, para continuar vivo. E a prorrogação expande o horror, espalhando angústia como se fosse fake news no Facebook. Mas era um daqueles dias de consagração. E foi assim que Everton, um reserva iluminado, e provavelmente iluminado pelo reflexo do sol na careca do espartano Jael, foi assim que Everton aniquilou o totalitarismo do empate e pavimentou a estrada para o descontrole absoluto. Entre mortos e feridos, entre falhas e glórias, entre desafios e conquistas, entre úlceras e marcapassos, a trajetória gremista também foi prorrogada.

Vale a Pena Fazer de Novo #2 | A Liga Extraordinária

Recapitulando: a ideia dessa série é resgatar das trevas boas propostas cinematográficas que foram aniquiladas por estúdios/cineastas dementes. O pontapé inicial foi sobre 300.

A Liga Extraordinária

(The League of Extraordinary Gentleman, Stephen Norrington, 2003)

Qual é a moral?
É a Liga da Justiça intelectual. Para impedir a ameaça de um misterioso inimigo chamado de O Fantasma, o aventureiro Allan Quatermain (As Minas do Rei Salomão) reúne um grupo de personagens de clássicos britânicos, incluindo Mina Harker (Drácula, de Bram Stoker), Capitão Nemo (20.000 Léguas Submarinas), Dr. Jekyll/Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), Rodney Skinner (O Homem Invisível – com um nome diferente por problemas de direitos autorais), Dorian Grey (O Retrato de Dorian Grey) e Tom Sawyer (As Aventuras de Tom Sawyer. Que não é um clássico britânico, mas está lá porque o patriotismo americano não tem limites (do ridículo)).

O que deu errado?
De forma bem concisa, podemos dizer que: tudo. The Legue of Extraordinary Gentleman é um tratado impecável sobre cair de cara no chão, fracassando miseravelmente desde os CGIs caricaturais até a maquiagem vilipendiosa, desde a trama inconsistente e metralhada de furos até os diálogos de biscoito da sorte, desde as cenas de ação narcolépticas até desenlaces catastróficos. É tanta coisa reunida de forma tão errada que devem ter igrejas por aí encarando o filme como um sinal da chegada do próximo anticristo.

Mas por que outra chance?
Porque é uma ideia brilhante, daquelas que gritam “clear!” e colocam o desfibrilador no peito da criatividade para reanimar ela. As graphic novels que o filme adapta (risos) são simplesmente geniais, tornando as personagens tridimensionais ao manter todo mundo de acordo com as personalidades, crenças e motivações dos livros de onde saíram – sem esquecer de construir uma trama repleta de reviravoltas, onde o mistério resulta em desfechos intensos e surpreendentes. Além disso, humor britânico.

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