Melhor que Nada - Ou pior que tudo

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Vale a Pena Fazer de Novo #1: 300

A ideia dessa série é a) finalmente bater o recorde de “série com mais de uma postagem no blog” e b) trazer produções que, ao contrário da maioria dos remakes, realmente mereciam uma nova chance na telona.

300

(idem, Zack Snyder, 2006)

Qual é a moral?
Xerxes, rei da Pérsia e uma versão medieval do garoto dono da bola que exige que todos passem para ele ou não tem jogo, chega até a Grécia e gentilmente pede a submissão dos gregos. Lêonidas, rei de Esparta e o rei da birra, diz que não e leva sua guarda de 300 soldados até o desfiladeiro das Termópilas, onde a superioridade numérica do contingente persa não vale nada porque os caminhos são estreitos e as lutas são em câmera lenta.


O que deu errado?
300 é menos uma história e mais um conjunto de cenas que foram feitas para aparecer no trailer. É um desfile de soluções fáceis, eventos óbvios, diálogos tão explícitos que talvez o MLB tente censurá-los em algum momento, atuações sofríveis, coreografias monótonas, trilha completamente deslocada, masturbação de câmera lenta, mise-en-scène derrotada, decupagem patética. Até a narração em off consegue chafurdar na lama do fracasso (não só o texto, mas também a produção em si da voz), fazendo com que o filme atinja novos níveis de demência. Salva-se de leve a fotografia, e olha que ela não conta porque foi simplesmente escaneada da graphic novel que o filme adapta (risos).


Mas por que outra chance?
Porque 300 de Esparta, a graphic novel que deu origem ao filme, é uma obra brilhante. Envolvente. Cinematográfica, apesar de tudo que a produção cinematográfica fez para mostrar o contrário. Qualquer diretor minimamente alfabetizado em histórias tira dali um daqueles filmes épicos que fazem o espectador sair do cinema querendo comprar uma espada. Repleta de momentos inesquecíveis, personagens interessantes e uma cuidadosa construção de clímax (em certos momentos, dá para sentir o vento soprando nos desfiladeiros), a graphic novel merece uma versão cinematográfica à altura. É um crime deixar tal obra à mercê da paródia anêmica que a Warner Bros. nos empurrou goela abaixo.

Eu não ia beber hoje

Em uma daquelas complexas narrativas não-lineares, o Grêmio entrou em campo aos 45 do segundo tempo e com o Barcelona a meros ÁCAROS da classificação, um buraco de minhoca futebolístico que obrigou a equipe gaúcha a fazer concorrência à SpaceX em cada jogada e apostar na estratégia de parecer assustada. Somente após cerca de 65 minutos de 45 do segundo tempo, um gol à la loca do Barcelona e uma latinha de cerveja desbravando o esôfago é que os 10 jogadores tricolores e o Ramiro se deram conta do que estava acontecendo. A partir daí, e apesar da parcialidade do árbitro Roberto Tobar Caicedo, o time sofreu um daqueles ataques súbitos de sobriedade (quem já ficou bêbado conhece) e levou a partida numa boa, inclusive com Jael quase empatando o jogo, evento que certamente derrubaria o estádio e as leis da probabilidade. Recuos acidentais do Edílson à parte, quando o apito final soou o Grêmio estava na sua quinta final de libertadores e eu senti que não poderia fazer outra coisa: abri uma latinha de cerveja.

Grêmio escalado para palestrar sobre objetividade no próximo TED.

O Barcelona entrou em campo a passos largos, procurando ganhar terreno na disputa a partir das doses a mais de Whey Protein ingeridas pelos seus jogadores, o que realmente resultou em mais volume de jogo (principalmente no início dos dois tempos). Mas, como diz o ditado, “volume é o caralho”: após sair na frente em um de seus já clássicos gols de pinball, o Grêmio ampliou quando Edilson, percebendo que o goleiro equatoriano estava sob efeito de cogumelos (e que o cálculo da barreira havia sido feito por alguém de humanas), disparou uma má notícia rasteira no canto da goleira. O lateral gremista, aliás, se transformou em um dos heróis de A Ilíada impulsionados pelos deuses para cagar todo mundo a pau, pois também conspirou com Luan para causar o terceiro gol em uma jogada que Quentin Tarantino faria questão de filmar em 70mm. Apesar do Barcelona insistir mais, as jogadas criadas pelo Grêmio eram certeiras – faltou muito pouco para o time voltar de Guayaquil pagando excesso de bagagem pelo número de gols.

Pena que a zaga entrou em colapso em alguns momentos, deixando equatorianos dominarem a bola dentro da área como se fosse uma região livre de conflitos. Ainda assim, quando todo o resto falhou, Marcelo Grohe fundou uma nova religião graças a um milagre capaz de provocar um sorriso espontâneo nos maiores goleiros de todos os tempos.

 

 

Como o Kindle fritou meu cérebro.

Comprei um Kindle. Faz cerca de um mês já, e parecia uma ótima opção, já que eu tinha e-books da Amazon que estavam no limbo (ler no notebook só parece pior do que ler no telefone), é uma opção leve, fácil e prática de leitura e estava em uma promoção cativante.

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O tempo (quase) destrói tudo

Há alguns meses, com o toque de bola envolvente, a defesa sólida, o meio de campo conquistando espaços como Napoleão e o ataque eloquente, o Grêmio seria favorito contra qualquer time da América do Sul. Principalmente contra o Grêmio desta noite, uma esquadra com pernas de gelatina cuja confiança vai render ao clube o Nobel de Física: é a menor partícula já descoberta pelo homem.

Essa incapacidade de realizar qualquer coisa minimamente arriscada impediu o Grêmio de realizar qualquer coisa minimamente efetiva. O Botafogo dominou o primeiro tempo e só não marcou porque claramente entrou em campo com a intenção de empatar, e existe alguma punição metafísica para quem entra em campo querendo empatar.

Mais do que a ausência de Luan, Pedro Rocha ou de Panoramix, o druida cuja poção mágica transformava o ramiro em Ramiro, foi o retorno do Grêmio aos romances da adolescência – aquela filosofia onde qualquer ato para conquistar o objeto romântico é evitado porque temos certeza de que ele/ela JÁ ZARPOU – que transformou o time em uma sequência de decisões equivocadas. Dentro de campo, a chegada da bola aos pés de algum jogador gremista equivalia à chegada de Cthulhu.

Agora cabe a nós, torcedores, aceitar as cicatrizes do time e se resignar com o fim da Era de Aquário e a volta da era dos colapsos nervosos. O ruim é que isso torna a equipe mais instável e vulnerável para as próximas partidas. O bom é que, às vezes, só precisa de um argentino naturalizado paraguaio pulando por cima dos zagueiros para seguir em frente.

Vende-se lote de terra em Grêmio x Botafogo

Eram as quartas de final da Libertadores, mas Grêmio e Botafogo inovaram ao entrar com uniformes magnetizados, dois polos negativos mantendo os jogadores de ambos os times afastados e abrindo espaços generosos no campo. Isso facilitaria a vida de qualquer árbitro, mas o juiz venezuelano que soprava o apito foi totalmente dominado pela demência, embarcando em um voyeurismo descontrolado e se limitando a observar: não marcou pênalti claríssimo para o Botafogo, deixou de marcar um para o Grêmio, ignorou faltas e cartões, enfim, conseguiu ser o destaque negativo de um jogo onde Cortez tentou afastar a bola usando o bullet time de Matrix.

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Só 3 coisas param no ar: helicóptero, beija-flor e o cérebro do Cortez.

Os relvados abertos também ajudaram a identificar a principal característica das equipes, que no Grêmio era uma dificuldade angustiante de dominar a bola e no Botafogo era uma capacidade nuclear de errar passes (embora o Grêmio também tenha errado passes ridículos e o Botafogo também tenha errado domínios ridículos). O jogador com mais espaço de todos, entretanto, era o volante Arthur, que olhava para Jaílson e Leo Moura e Fernandinho e Ramiro e Cortez e Barrios e só via uma vastidão de terra devastada e estéril. Com o 0 a 0 no jogo de ida e a obrigação de marcar um gol no jogo de volta, a estratégia mais adequada para a partida na Arena parece ser cerveja.

Os maiores heróis do mundo

Em julho de 1941, três prisioneiros conseguiram escapar do campo de concentração de Auschwitz. Como represália pela fuga, o comandante do campo escolheu aleatoriamente dez prisioneiros para trancar em uma cela subterrânea sem luz, água ou comida, onde permaneceriam até morrer. Ao tomar conhecimento de que um deles, Franciszek Gajowniczek, tinha mulher e filhos, o padre polonês Maximiliano Maria Kolbe voluntariou-se para assumir o lugar do prisioneiro, pois já era idoso e não tinha mais ninguém dependendo dele no mundo. O padre morreu após mais de 20 dias. Gajowniczek foi salvo. E estava presente no Vaticano quando, 41 anos depois, o papa João Paulo II canonizou Kolbe.

Também em julho de 1941, no distrito de Minsk, durante a invasão alemã à URSS, o comandante do campo de concentração local fez 45 judeus cavarem suas próprias covas. Quando o trabalho terminou, as vítimas  foram amarradas e atiradas nelas, e os homens da SS ordenaram que 30 russos cobrissem as covas com terra para que os judeus fossem enterrados vivos. Os russos se recusaram. Armados com metralhadoras, os alemães atiraram e mataram as 75 pessoas.

Acho encorajador que, diante de uma crueldade quase inconcebível e de consequências terríveis, ainda exista algum ato de humanidade capaz de ser maior do que todo o terror perpetrado. Só queria tornar essas histórias menos anônimas.

Briga de riquinhos: Floyd Mayweather vs Conor McGregor

Não vi a luta entre Floyd Mayweather Jr. e Conor McGregor, mas aposto que os acontecimentos se desenrolaram exatamente desta forma (e se não foi assim, deveria ter sido).

Apresentação

Floyd Mayweather Jr. chega vestindo o seu tradicional roupão feito com notas de cem dólares. Conor McGregor pergunta o que são essas coisas acolchoadas e porque precisa usar elas nas mãos enquanto Floyd sobe no ringue com o elevador que mandou instalar especialmente para a ocasião.

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Por que a Terra não para?

A Terra gira ao redor de si mesma a inacreditáveis quatrocentos e sessenta e cinco metros por segundo. Isso dá mais de mil e seiscentos quilômetros por hora, uma velocidade tão absurda que é difícil visualizar qualquer coisa se movendo a mil e seiscentos quilômetros por hora, que dirá uma gigantesca elipse feita de água e rocha.

Se alguém colocasse uma barra de ferro no aro da bicicleta da Terra enquanto ela pedala a todos esses quilômetros horários, seria o fim. Parar a rotação do planeta de forma súbita arremessaria todo mundo na direção leste a velocidades não-sobrevivíveis. Não que faça muita diferença, já que o mundo se tornaria um combo de incêndios, tsunamis e furacões, pelo menos enquanto o sol não pulverizasse toda a superfície – com o núcleo do planeta parado, o campo magnético que nos protege da estrela mais próxima iria pro espaço.

A intensidade desse cenário devastador parece adequada se pensarmos na situação oposta, naqueles momentos onde algo acontece e a gente só quer que tudo permaneça estático por pelo menos alguns segundos enquanto tentamos manter os pés no chão e o mundo vem e nos atropela a mil e seiscentos quilômetros por hora.

E de repente a gente descobre que se passaram dez anos e que nós não paramos pelo mesmo motivo que a Terra nunca vai parar: não haveria como sobreviver.

Fair Play de falha de goleiros

A flacidez com que Marcelo Grohe foi na bola é um lembrete de que o planejamento é um tigre de papel, que tudo na vida pode ser colocado abaixo por um par de mãos emulando um purê de batatas. Ainda mais com o Grêmio achando que o gramado é apenas uma sala de espera para a classificação e pegando uma Caras de 3 anos atrás para ler. Felizmente o goleiro do Godoy Cruz, cujo nome é não importa porque o Grêmio se classificou, também foi contaminado pela gripe aviária e soltou a bola nos pés de (um gloriosamente sóbrio, objetivo e eficiente) Barrios. A equipe então tomou consciência de si mesma, lembrou do que pode fazer, e não só do que se espera que ela faça, e expeliu o Godoy Cruz da competição com um Pedro Rocha meteórico e um Geromel alucinado galopando pelo campo em direção ao olimpo. Maldição das oitavas de final expurgada, é hora de seguir em frente com um otimismo guardado no bolso: se por acaso o Grêmio bater na trave, é possível que Pedro Rocha esteja por perto para completar pro gol.

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